DA VAGA DA SEMANA
A Fidai Film, de Kamal Aljafari: vermelho, de fogo e de sangue
With Hasan in Gaza, do palestiniano Kamal Aljafari, foi a escolha do NA VAGA DE ROHMER para filme do ano em 2025, à frente de 'Foi Só Um Acidente', de Jafar de Panahi, de Miroirs No.3, de Christian Petzold, e de todos os restantes da nossa lista. Impressionou-me a o balanceamento tão harmonioso com que Kamal Aljafari conseguiu oscilar e deambular entre a catástrofe e a poesia, a partir de imagens colhidas em modo vídeo amador, há mais de duas décadas, quando o próprio não era ainda realizador. Por meio daquela viagem aos solavancos com a turbulência de uma câmara naturalmente instável, vem ao de cima uma candura que amortece - ou camufla - a dor e vai abrindo ou apontando caminho, poeticamente, à esperança. E nesse vagueio de Kamal por aquela Gaza de 2001 há elementos que sobressaem como faróis dessa quase-quimera: as crianças, o mar, o sol e a música feita de poemas cantados. De With Hasan em Gaza andamos ligeiramente para trás na cronologia, um ano apenas, e deparamo-nos com A Fidai Film (2024) - filme que será exibido na Festa do Avante, na próxima sexta-feira, integrado na programação do CineAvante. Dos sorrisos rasgados das crianças, da força da tranquila vinda do mar, do sol alaranjado a chamar no largo horizonte ou do poema que canta e conta o amor, que revestem With Hasan em Gaza, sobra, em A Fidai Film, o impacto da dor que cobre esses quatro elementos (crianças, mar, sol, e poemas cantados).
Após todo um filme feito com um sem-número de fragmentos oriundos de imagens de filmes de ficção, de não-ficção, de documentários ou de outras (imagens) avulso que Kamal Aljafari resgatou de arquivos israelitas - em resposta ao ataque e roubo ao Centro de Investigação Palestiniano (onde estava depositado um arquivo fílmico, literário, de imprensa...), em Beirute, no ano de 1982, operado por forças militares de Israel -, eis que o cineasta palestiniano nos oferece um breve epílogo, a fechar, trazido por um separador, onde em cerca de três minutos traduz, e condensa, todo o filme, numa sequência de narrativa linear, mas sem falas, apenas com a força das imagens e do som. É um epílogo que funciona como uma espécie de sinopse para aquilo que acabamos de ver. E, voltando aos elementos luminosos da esperança de With Hasan em Gaza, eis que apenas dois deles chegam ao epílogo: o mar e as crianças. Já o sol, não encontra espaço, a atmosfera é austera, sombria, de um dia cuja luz está a ser vergada pelo escuro da noite que se aproxima; muito antes do epílogo, mais propriamente no plano de abertura do filme, o sol aparecera banhado a vermelho, a cor com que Kamal vai tingindo elementos, escritos, rostos, enfim...imagens. Quanto aos poemas cantados, esses cessam imediatamente antes do epílogo, dissipam-se, enquanto um homem caminha, passando por uma grade na janela que nos separa do mar, dessa libertação, e de uma portada que se fecha...ao amor. Voltemos ao epílogo, onde sobra o mar e as crianças: o mar é o único escape no horizonte para o cerco sombrio ali montado e vigiado do alto, a binóculos por um militar, e é com o mar como largo pano de fundo que vemos uma criança extrair da gaiola uma ave (quiçá uma pomba branca) e, de seguida, a libertá-la para o céu; uma liberdade demasiado precária, porque instantes depois, talvez essa mesma ave (ou pomba) terá sido alvejada pelo tiro que vemos sair e ecoar da arma do militar-vigia. Já estamos portanto a falar do derradeiro dos quatro elementos: as crianças - crianças agora no plural - que na cena anterior, ainda e sempre neste soturno epílogo, veem os militares negarem-lhes a restituição da bola em que davam uns pontapés na rua, sob a ameaça jocosa de um cassetete empunhado. Poesia e esperança esfumadas neste breve epílogo, onde o fumo é só do fogo, fogo que emerge em A Fidai Film como elemento que predomina sobre os outros, um fogo que chega, entra, instala-se e arde constantemente, numa toada de normalidade.
Até chegarmos ao epílogo, é como se estivéssemos sentados num canto escuro de um museu perante uma instalação em vídeo, com as imagens e o som ora a coabitarem harmoniosamente ora a alternarem e a disputarem o peso maior. Sempre que Kamal tinge as imagens de vermelho, as imagens são mandatórias, espoletando um imaginário de sangue, inclusive derramado pelo próprio mar, quando as águas ficam encarnadas, mas também de fogo, que se prolonga do vermelho na arma do soldado para vários focos de incêndio ao longo do filme, fruto do rasto de destruição, e cuja continuidade é também assegurada pelo som, no constante crepitar das chamas. A uma certa altura, o som (música introduzida de origem metálica) parece mesmo apagar as imagens e jogar o papel principal, como se estivéssemos a ser engolidos, sugados por uma espécie de vento, para um buraco negro profundo. Recorrendo a imagens que atravessam várias décadas, como reposição da memória coletiva de um povo, vamos observando a tentativa de Kamal em contrastar cenários de ataque, opressão, morte com a calmaria que emana da natureza, resgatando pedaços de campo e de vida de quem trabalha a terra com a sua força, e com a ajuda dos animais, soltando poemas cantados ao som da água que corre nos riachos - é a poesia possível, mas também, ao mesmo tempo, o ênfase nas raízes de um povo, o povo palestiniano, naquela terra.
Mas, acima de tudo, é o manuseamento da memória como arma, são tiros e balas devolvidas em forma de imagens e sons, salpicadas com tinta vermelha, de fogo e de sangue.
A Fidai Film (2024), de Kamal Aljafari
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