DA VAGA DA SEMANA
'Dois Procuradores', de Sergei Loznitsa: a arte ilusória da espera
Na longa e persistente cruzada que o cinema de Sergei Loznitsa (ucraniano de origem bielorrussa) tem levado a cabo para retratar a (extinta) União Soviética diria que há três filmes seus absolutamente fundamentais para melhor compreendermos a extensão do espírito do regime comunista durante, no final e após a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas): The Event (2015) [O Evento], 'Uma Mulher Doce' (2017) e State Funeral (2019) [Funeral de Estado]. Se procedermos à sua arrumação seguindo a cronologia dos factos, nos dois filmes documentais, e a temporalidade percebida, no filme ficcional, começaríamos por State Funeral, seguido de The Event e terminaríamos com a ficção 'Uma Mulher Doce'. Em State Funeral, numa corporealidade que nos transporta tão espontânea e afincadamente para o movimento ou a estagnação de um sem-número de corpos e rostos dos longos travellings e planos fixos em D'Est (1991), de Chantal Akerman - especialmente quando Loznitsa, naquelas imagens de arquivo, decide dar cor ao preto-e-branco -, observamos os semblantes de um povo manietado, cabisbaixo, demasiado tolhido para poder olhar em frente, embalado pela narração da epopeia leninista-estalinista que os altifalantes fazem ecoar de Moscovo até à Sibéria, lembrando que a morte material de Estaline em nada altera o rumo e o aperfeiçoamento do comunismo, consubstanciado na luta do proletariado, palavras que se dissipam pelos ares e que culminam no sobrevoar de Estaline pelos céus, a partir de um grande retrato suspenso numa grua. Já em The Event, todo ele a preto-e-branco, feito também de imagens de arquivo, assistimos à morte do comunismo nas ruas, poeticamente assinalada ao povo por idênticos altifalantes utilizados na difusão da propaganda a sete ventos em State Funeral; estamos em 1991, dá-se o colapso da URSS, ergue-se a bandeira da Federação Russa, e Boris Ieltsin é aclamado como um novo herói de um povo que vamos vendo um tanto ou quanto confuso, atordoado, a desenferrujar-se de décadas de letargia e esmagamento, em busca de esperança, por mais vã que ela possa ser. Por fim, em 'Uma Mulher Doce', inspirado no romance homónimo de Fiódor Dostoiévski, numa Rússia feita de herança soviética, sem temporalidade definida, ainda que elementos presentes nos remetam para uma contemporaneidade já deste século, deparamo-nos com a diluição da ditadura comunista da URSS na autocracia oligárquica da Rússia atual do século XXI, de Putin, um grande sistema feito de autoridade, controlo, burocracia, falta de transparência, que contorna leis e manieta o povo. E se com 'Dois Procuradores' (2025) - parte também de uma obra literária homónima, de Georgy Demidov - Loznitsa regressa ao estalinismo, mergulhando na Grande Purga, particularmente no ano de 1937, na verdade, há muitos pontos de contacto entre este filme e 'Uma Mulher Doce', a começar pelos próprios protagonistas centrais, que partilham uma certa candura como revestimento da resiliência que transportam com eles, enquanto prosseguem as suas tão autênticas como infrutíferas cruzadas. Sobre ela, uma mulher doce, atua um povo que reverbera os maus hábitos de um sistema; sobre ele, procurador-investigador, atua a teia enredada do próprio sistema-regime.
O recém-licenciado Alexander Kornev (Aleksandr Kuznetsov), agora procurador-investigador local, recebe um pedido de ajuda da parte de um prisoneiro, escrito com o próprio sangue num pedaço clandestino de cartão. Apesar de vermos um outro recluso a filtrar este 'bilhete' enquanto operacionaliza o queimar dos muitos pedidos de clemência de condenados ali detidos a Estaline, não ficamos a saber como a correspondência chega às mãos do protagonista - começa logo de início a opacidade e a suspeição que, fiel ao período histórico de grande terror e perseguição levado a cabo pelo NKVD (pomposamente intitulado de Comissariado para os Assuntos Internos do Povo), o filme encarna de início ao fim. A partir do momento em que Kornev chega à porta do estabelecimento prisional para visitar o recluso, em resposta ao pedido sangrento que lhe foi endereçado - e nesse preciso momento, à porta da prisão, Loznitsa oferece-nos um plano de conjunto só com mulheres vestidas de cores escuras, enlutadas, presumivelmente esposas, mães, irmãs dos encarcerados, qual coro negro -, o desfecho narrativo é mais ou menos evidente, terminará com prisão ou execução, ou ambas, para o protagonista. De facto, o que mais interessa são os intervalos dos acontecimentos, os tempos de espera, ou melhor, a arte ilusória da espera - de contornos um tanto ou quanto similares à espera vivida pel'A Mulher Doce' -, feita de olhares, respostas evasivas, acenos, trejeitos, silêncios, ruídos, labirintos físicos e mentais, suspeitas, incertezas, ou planos de conjunto corais: além do já citado, há outro particularmente incisivo e com um toque grotesco - como tão bem vimos em 'A Mulher Doce', a lembrar um pouco o cinema de Emir Kusturica - que Loznitsa gosta de incutir, quando Kornev acaba de sair da cela, da conversa com o homem detido, e se depara com um bloco, uma barreira humana feita de guardas que o tentam intimidar, incluindo pelas caretas de mauzões forçadas.
Efetivamente, podemos dividir 'Dois Procuradores' em três grandes momentos de espera, para Kornev, uma espera que Loznitsa se esforça para que a sintamos como sendo palpavelmente demorada, e que nos impacte tanto ou mais do que o(s) próprio(s) acontecimento(s) que a precede(m). A espera é em si um acontecimento, é a arte de fazer esperar infligida pelo sistema. Vamos aos três momentos: primeiro, a espera para falar com o prisioneiro na cela, que sabemos depois ser um preso político, antigo líder do Partido Comunista na região, acusado, como tantos, de contrarrevolução; depois, a espera para falar com o Procurador-Geral em Moscovo, a quem Kornev denuncia os abusos do NKVD e pede uma investigação; por fim, a espera para conhecer o veredito final da sua viagem de regresso de Moscovo, estampado num papel-recibo-bilhete, após amena cavaqueira com dois colegas de carruagem. Se pensarmos bem, nem a desejada conversa privada com o recluso na cela, nem o encontro ambicionado com o Procurador-Geral, nem o destino-desfecho carimbado no papel, recheados de anunciada previsibilidade, nos oferecem tanto quanto as esperas que antecederam esses momentos. Na cadeia, é na espera que o ambiente taciturno e macabro daqueles corredores respira, há um ruído metálico que ecoa permanentemente, ao de leve, acompanhando o bater das portas e os passos, vistos ou apenas escutados; a câmara fixa, estacionada ao longe, com grande profundidade de campo, prolonga a extensão dos corredores, autênticas travessias, as retas de um labirinto escuro que depois prossegue por entre escadas, salas exíguas, cheias de guardas, com portas de grades que se abrem e se fecham à chave a cada passagem - a opressão quase não é vista, pede antes para ser imaginada. Na Procuradoria-Geral, é na espera que o labirinto físico e mental continua, mas agora as fardas militares dão lugar aos fatos burocratas. As dezenas de pessoas que se acotovelam por aquelas escadarias e que se cruzam nos corredores emanam suspeição - aqui paira a dúvida que depois leva à certeza da prisão/condenação/execução. Por entre as esperas, Kornev acumula o cansaço, fica mais vulnerável à teia enredada do sistema. E no comboio de regresso de Moscovo, é na espera que os sinistros homens embalam Kornev com vodka e acordes de guitarra enquanto se deleitam a discutir com ele princípios do Direito.
A espera. No fundo, a História do comunismo soviético, propalada por Lenine, e prosseguida por Estaline, simbolizadas no retrato do primeiro e no busto do segundo, praticamente em cima da cabeça do Procurador-Geral, no seu gabinete, assenta também ela numa eterna e ilusória espera: pela vitória do proletariado (operários e camponeses) sobre as forças opressoras.
Two Prosecutors (2025), de Sergei Loznitsa
Visionado no Cinema Ideal
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'Dois Procuradores' (2025), de Sergei Loznitsa



