'Adam', de Maryam Touzani: mãos que dão vida(s)
Mãos. Foi o cinema de Robert Bresson que me despertou o interesse para o papel e a importância das mãos em determinadas narrativas, em certos filmes. Foi depois de ter visto 'Fugiu um Condenado à Morte' (1956) e 'O Carteirista' (1959), duas obras-primas do cineasta francês, que tomei consciência daquilo que as mãos podem fazer por um protagonista, por uma história, tanto mais sendo as personagens de Bresson desprovidas de improviso e expressividade, feitas de rigidez e mecânica - as mãos dizem mais do que os rostos, quer em Fontaine, quer em Michel, o condenado e o carteirista, respetivamente. Em 'Fugiu um Condenado à Morte', as mãos são engenhosas, hábeis, persistentes, resilientes, em estreita ligação com o cérebro de um recluso que traça e executa um plano audacioso, minucioso e de muitas horas de trabalho para se evadir de uma prisão; enquanto que em 'O Carteirista' as mãos revelam subtileza, sensibilidade, reflexos, agilidade, maleabilidade, treino, vertendo na prática aquilo que um cérebro inspirado no Raskólnikov de 'Crime e Castigo' (a obra icónica de Fiódor Dostoiévski) projeta: uma mente que se crê brilhante, superior, de uma elite enquanto ser pensante, que desafia a sociedade, as autoridades, a norma. Mãos que dão vida(s), mãos de duas mulheres que se unem e entrelaçam por uma nova vida e por uma vida nova, eis 'Adam' (2019), filme-estreia da marroquina Maryam Touzani, uma das cineastas mais fascinantes dos tempos recentes - a escolhida, em Abril, DA VAGA REALIZADOR DO MÊS.
Vagueamos pelas ruelas de Casablanca até chegarmos à casa-padaria-que-vende-à-janela para aí começarmos a prestar atenção nas mãos, naquilo que elas fazem e transmitem. Mãos que dão vida à farinha, e consequentemente à massa, que ora se amassa (passe a redundância), ora se se estende, ora se enrola, pelas mãos untadas de azeite e manteiga cuja lente da câmara, que se aproxima e desliza, faz reluzir, gerando luminosidade; dali a massa transforma-se em msemen, rziza [pães tradicionais marroquinos] e afins, tudo fresco e feito na hora, pelas mãos de saberes ancestrais que recusam máquinas, e que atravessam a janela-postigo para entregar nas mãos de quem compra. As mesmas mãos que no transfer da padaria para casa, do negócio para o lar, no caso, de um compartimento para o outro, esfregam a roupa vorazmente, descascam batatas, limpam os vidros, centram delicadamente os talheres - aqui, com parcimónia e minúcia, que a câmara capta, deixando-se ficar, numa sensibilidade tal que desconcerta. Abla (Lubna Azabal) e Samia (Nisrin Erradi) são as mulheres detentoras de tão preciosas mãos. Abla é a dona da casa-padaria-que-vende-à-janela, vive com a filha, a menina-sorriso, de nome Warda, tal como a cantora homónima Warda al-Jazairia (argelina, mas que chegou a viver em Marrocos, figura incontornável da música árabe, também foi atriz); Samia é uma mulher grávida, de barrigão, à deriva pelas ruas, e que, após várias tentativas falhadas, encontra na casa de Abla um abrigo para ficar até dar à luz. Abla carrega o fardo de uma tristeza profunda que parece consumir-lhe a alma, nem mesmo a pequena e amorosa Warda consegue desbloquear-lhe emoções; Samia carrega o fardo de um destino irreversível: um bebé que nascerá para seguir a via da adoção, a única saída possível para ela e para a criança.
Mãos. Mãos que se apertam e se confrontam, esgrimem posições, assim vemos a sequência mais bela de todo o filme, a transbordar delicadeza, uma vez mais, sensualidade e um chorrilho de emoções, sentidas e que presumimos. Decidida a resgatar emocionalmente Abla - sabemos entretanto que é viúva e perdeu o marido num acidente -, Samia recorre a uma cassete - também ela já ancestral, por estes dias - para pôr a música de Warda a tocar, em tempos adoração para Abla, mas após a perda do marido virou proibição. Samia recusa desligar a música e digladia-se com Abla, num forte e cerrado jogo de mãos, que a câmara faz questão de nos mostrar, alternando com os rostos de ambas, num verdadeiro tête-à-tête, olho no olho, até que as mãos de ambas se larguem e as (mãos) de Samia passem a segurar a cintura da viúva, exponenciando todo um esgar de dor, libertação e ebulição a desenhar-se no rosto dela; finalmente o ventre responde à música, Samia afasta-se para contemplar à distância, ou seja, o resgatar da vida, o nascimento de uma nova vida - se Touzani decidisse acabar aqui, nesta sequência, o filme seria da mesma forma magnífico. Mas Touzani quis também mostrar-nos o contrário, desta feita, Abla como assistente emocional de Samia, em papéis invertidos, promovendo também ela o surgimento de uma vida nova: Adam.
Com o nascimento de Adam é como se começasse um outro filme, absolutamente centrado e construído numa estética emocional-reflexiva, suportada por enquadramentos que pintam magistralmente, como uma sequência de quadros que nos mostram a essência de uma relação umbilical mãe-filho (bebé recém-nascido), como uma força que vem das entranhas e que anula qualquer tentativa de um exercício de suposta racionalidade. Mas esse trajeto, essa sequência de diferentes planos, com os tais enquadramentos ilustrativos, é feita prolongadamente debaixo de um compulsivo choro do bebé, para que possamos sofrer, sentir e refletir em conjunto com Samia, sobre o que é ser mulher, sobre o que é ser mãe, sobre o que se deseja e sobre o dever ser (da moralidade), sobre o ser individual e sobre o ser social - com toda a afetação produzida por padrões tradicionais, conservadores, religiosos, morais, extremamente enraizados. O mais importante não é de todo sabermos o desfecho e a decisão particular e individual de apenas uma mulher, neste caso de Samia - como também não foi importante não saber o contexto de Samia até chegar aqui -, mas sim percecionar e tomar consciência, demoradamente, por meio de choro ou de silêncio - não, não é momento para uma qualquer música instrumental como guia de referência coletivo de emoções - do sentido mais transversal e lato possível das palavras de Samia, a certa altura: "poucas coisas nos pertencem [às mulheres]". Touzani convoca-nos a cada um de nós, espectadores, para que vivamos emoções e façamos juízos, por nós próprios.
Adam, de Maryam Touzani (2019)
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'Adam', de Maryam Touzani (2019)