DA VAGA DE SALA ESPECIAL - CineAvante
'Complô', de João Miller Guerra: o coração na boca
Nem de propósito. No último fim de semana foi possível ler no Público pelo menos dois artigos sobre os apátridas (cidadãos sem nacionalidade atribuída) em Portugal. Com a entrada em vigor a 1 de Setembro do Estatuto de Apátrida, o jornal em causa dedica um dos artigos aos números oficiais de apátridas que a AIMA (Agência para Integração, Migrações e Asilo) apresenta, apenas 17 cidadãos, dados esses que estão desfasados dos últimos censos (em 2021) que, por sua vez, ao dia de hoje, podem também já pecar por defeito. Já o outro artigo debruça-se em modo de reportagem na história de um jovem de 25 anos, nascido em Portugal e residente desde sempre no nosso país, do qual nunca se ausentou até hoje, filho de pais ucranianos, mas que não possui nenhuma das duas nacionalidades, nem outra qualquer, ou seja, um apátrida, que ao vislumbrar luz ao fundo de um túnel com mais de duas décadas no escuro se dirigiu aos serviços da AIMA em Portimão - a sua terra natal - no próprio dia 1 de Setembro (data de entrada em vigor da nova lei), e lá esbarrou com o desconhecimento processual da funcionária face ao Estatuto de Apátrida que acabara de vigorar, pelo que, a espera continua. Já Bruno Furtado, ou melhor, Ghoya, assim é conhecido no meio artístico enquanto músico de rap crioulo, protagonista central em 'Complô' (2025), de João Miller Guerra - a primeira longa-metragem a solo após vários trabalhos em realização partilhada com Filipa Reis, que esteve em exibição este domingo no CineAvante (Festa do Avante), após estreia nacional no último Doclisboa - não é um apátrida, pois possui nacionalidade cabo-verdiana, de onde os pais são originários, mas, à semelhança daquele cidadão entrevistado pelo Público que desespera pela atribuição da nacionalidade portuguesa, Ghoya também nasceu em Portugal, também foi sempre residente em Portugal, também nunca saiu de Portugal, nem sequer para conhecer Cabo Verde, e já lá vão mais de 30 anos. Inclusive, como testemunhamos no filme, a própria autorização de residência (AR) carece de renovação. É num limbo existencial que o vai mantendo preso na liberdade que ganhou com a saída da prisão, após cumprimento da pena, que o coração encontra na boca a válvula para bombear, de dentro para fora, pela música, a força das palavras.
"Está numa situação irregular, mas não ilegal", ouvimos a certa altura a funcionária do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) - entretanto extinto, dando lugar à AIMA - dizer a um dos dois protagonistas, precisamente Rúben Furtado - por sinal irmão de Ghoya, que chega a fazer uma breve aparição -, em 'Li Ké Terra' (2010), de João Miller Guerra e Filipa Reis. Rúben Furtado, à época um jovem que se encontrava com a AR caducada e que ia esbarrando, num labirinto incessante, na impiedosa e atravancada máquina burocrática - antes no SEF, agora na AIMA. Já Miguel Moreira, o amigo e também personagem central desse primeiro filme de Miller Guerra com Filipa Reis, rodado no Bairro do Casal da Boba (Amadora), mais tarde, em 2018, protagoniza 'Djon África' e, em solo cabo-verdiano pela primeira vez, acaba por viver na pele, por experienciar, essa sensação ou sentimento de apátrida, quando no país de origem dos pais, das suas raízes, é tratado como um estrangeiro, paradoxalmente, tal como acontece em Portugal, país onde nasceu e viveu todos os seus 20 e tal anos, permanecendo sem o carimbo da nacionalidade (portuguesa).
É pois este permanente limbo existencial-identitário que Miller Guerra volta a explorar, agora a solo em 'Complô', e que, adicionado ao regresso ainda fresco de Ghoya à liberdade - após quase uma década de detenção -, ganha uma forte expressão imagética, por meio de uma sequência de imagens em que salta à vista a vedação metálica de um ringue (campo de futebol), culminando num plano em que vemos Ghoya sentado numa bancada, a projetar o fumo para o horizonte, e nas suas costas, quase em cima dele, sentimos o peso daquela grade-rede-vedação, quase como se o víssemos num pátio do interior de um estabelecimento prisional, tudo isto enquanto a sonorizar a dita sequência ouvimos a conversa gravada, aquando de uma das suas visitas obrigatórias aos serviços de reinserção social, onde o pica-ponto, ou pró-forma, impera e esmaga qualquer apoio ou resposta à angústia de Ghoya. Em vez da cruz, é uma grade-rede-vedação que Ghoya tem de continuar a transportar às costas, horizonte afora.
Sobra o coração, que num grande plano toma o lugar da boca no rosto, de perfil, de Ghoya, e, encostado ao microfone, bombeia num ritmo cardíaco frenético mil e umas palavras que contam e cantam alucinantemente a vida, a sua e de tantos mais, num rap crioulo que, também no Público, esteve em destaque no passado fim de semana, numa retrospetiva dos seus 30 anos de existência, onde lá figura também o nome de Ghoya.
'Complô' (2025), de João Miller Guerra
Visionado no CineAvante, na Festa do Avante
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Complô (2025), de João Miller Guerra



