DA VAGA DE SALA & REALIZADOR DO MÊS - Especial Festa do Cinema Italiano
L'uomo in più, de Paolo Sorrentino: melancolia em duplicado
No espaço de apenas quatro dias, à boleia do Especial Festa do Cinema Italiano - DA VAGA DE SALA, faço uma viagem temporal de quase 25 anos na filmografia de Paolo Sorrentino (escolha, em Abril, DA VAGA REALIZADOR DO MÊS), do presente para o passado, de frente para trás, da sua mais recente longa-metragem até ao seu trabalho inaugural - de La Grazia (2025) [A Graça] até L'uomo in più (2001) [Um homem a mais]. Além do eterno-inseparável Toni Servillo como fio condutor da fusão cinema-vida concebida por Sorrentino, cabe também, e muito, àquele permanente olhar cinematográfico que o cineasta italiano nos coloca como lente, o reconhecimento do ADN autoral vertido no longínquo L'uomo in più e no recentíssimo La Grazia. Desde essa primeira obra ficou claro que o espectador não viveria os seus filmes a partir do olho humano, mas sim transportado por esse olhar cinematográfico sob a alavanca dos movimentos de câmara - em especial os muitos e por vezes longos planos-sequência - que permitissem abrir, alargar, amplificar a realidade, recriá-la de certo modo, conferindo-lhe uma dinâmica de cunho muito próprio; também, diga-se, a partir de enquadramentos arrojados ou inusitados e de uma montagem que não receia o impacto. Em cima disto teremos sempre a indissociável música. O que mudou essencialmente de L'uomo in più para La Grazia foi o olhar de Sorrentino para a vida. Em 2001, a realidade é retratada; em 2025, a realidade é caricaturada - o olhar cinematográfico, na sua essência, mantém-se idêntico e fiel.
Em L'uomo in più, o humor está incrustado e é genuíno nas personagens, mas não serve para aligeirar, não tem esse condão. Em La Grazia, o humor é injetado nas personagens com o intuito de fazer baixar a gravitas. A música em L'uomo in più, ora diegética (as canções melancólicas cantadas por Toni Servillo enquanto artista musical na narrativa) ora introduzida (I Will Survive a ajudar a montagem a fundir os dois Antonios Pisapias [Servillo e Andrea Renzi] num momento de tentativa de resgate da(s) suas vida(s)), está invariavelmente ao serviço do filme; já em La Grazia, quando ouvimos a batida eletrónica introduzida, aparentemente como um ruído interior que tilinta na cabeça do protagonista, resistimos mais em aferir esse propósito da música em servir o filme. E claro, a música em ambos o filmes reforça quer a ideia de retrato quer a ideia de caricatura da realidade, respetivamente. Em L'uomo in più, quando vemos e ouvimos Tony a cantar de pulmões plenos a canção que evoca a melancolia na letra e na música naquele concerto deprimente numa pequena festa popular que deveria servir de comeback para o cantor - após ausência forçada dos palcos devido a um processo de abuso sexual de menores -, mais do que sentimos a sua entrega, feita de desespero e frustração; em La Grazia, quando vemos e ouvimos o Presidente da República de auscultadores nos ouvidos, vestido de fato e gravata em pleno palácio presidencial, a trautear letras de rap, percebemos bem a lógica caricatural que Sorrentino decide impregnar no filme.
É uma Nápoles cinzenta do início ao fim, aquela que vemos em L'uomo in più, numa clara imagética que reforça a melancolia das canções de Tony, melancolia que ele faz tudo por afugentar, tomando todos os riscos (muitos de cocaína, também), que parecem destinados a fazerem ricochete, melancolia que se estende ao seu homónimo, o outro Antonio Pisapia - ambos nascidos a 15 de Agosto, ainda que em anos diferentes -, o futebolista que joga para ser treinador e que nunca chega a sê-lo, mesmo com a sua tática de jogo inovadora para o calcio da primeira metade dos anos 80, L'uomo in più, pois claro - um Arrigo Sachi em potência que acabou por se tornar ele próprio no homem a mais, não no campo de futebol, mas na vida.
Sem nunca travarem diálogo um com o outro, apenas se viram pessoalmente, e à distância, uma única vez, Sorrentino recorre ao olhar cinematográfico para os unir e fundir, pelos rostos, num magnífico campo/contra-campo entre Tony, sentado no sofá de casa, e Antonio, no ecrã de televisão (estava a participar num programa televisivo), que se desdobra depois em zoom in alternados nos rostos de ambos, desembocando em grandes planos, onde são percetíveis as lágrimas que os dois Antonios Pisapias soltam dos olhos. Eis a magia de Sorrentino.
L'uomo in più (2001), de Paolo Sorrentino
Visionado na Festa do Cinema Italiano, no UCI, El Corte Inglês
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L'uomo in più (2001), de Paolo Sorrentino



