DA VAGA DE SALA
'O Barqueiro', de Simão Cayatte: prisioneiros da vida e um (não) triângulo
A busca de um determinado objetivo na vida passa sempre por um processo, em forma de caminho ou estrada, por vezes curto, outras vezes demorado, ora com mais, ora com menos linearidade; um processo que pode culminar na concretização do tal objetivo inicial ou, em sentido inverso, no falhanço do mesmo, ou, ainda, numa espécie de terceira via: um ajuste que conceda algum conforto face às expetativas inaugurais. Depois de ver 'O Barqueiro' (2026), segunda longa-metragem de Simão Cayatte, relacionando-o com 'Vadio' (2022), a sua longa de estreia, e com 'Miami' (2014), uma das curtas anteriores, vem à tona uma similitude que cobre os três protagonistas centrais dos respetivos filmes: todos eles estão em busca de um objetivo bem identificado, todos eles enfrentam um processo de travessia, todos eles se deparam com a sinuosidade. A todos eles, no fim, o realizador português ajusta-lhes o desígnio original para lhes conceder conforto: em forma de flashes, na protagonista que busca a fama em 'Miami'; em forma de abraço apertado, no protagonista que procura o pai em 'Vadio'; em forma de um "olá pai" por telefone, no protagonista que quer comprar o piano prometido algures no tempo à filha (perdida) em 'O Barqueiro'.
Até esse ajuste de conforto derradeiro - desagua inevitavelmente no último plano em cada um dos três filmes -, durante a travessia, todos eles, a rapariga, em 'Miami', o rapaz, em 'Vadio', e o homem, em 'O Barqueiro', expelem em forma de oxímoro uma fragilidade cruel, que os leva a fugir, a roubar ou a matar. Nesse processo, que vai do encetar da busca do objetivo até ao já mencionado ajuste de conforto de derradeiro, e por onde o cinema de Cayatte gosta particularmente de vaguear, todos eles encontram alguém que reflete em espelho uma cruzada de contornos similares - em 'Miami', a colega de turma marrona que carece de atenção emocional; em 'Vadio', a vizinha que procura reencontrar-se com a filha e com ela própria; por sua vez, em 'O Barqueiro', há mais do que um espelho a refletir para o protagonista, no fundo, vários e diferentes prisioneiros da vida refletem. A partir de um desses reflexos em espelho com Joaquim (Romeu Runa) - um ex-presidiário que saiu em liberdade após 16 anos de cárcere e que vai omitindo à família essa saída da prisão, enquanto aceita o trabalho ilegal de barqueiro dos apanhadores de amêijoas no Tejo para ganhar dinheiro e assim conseguir oferecer o piano à filha (Madalena Aragão) -, viajei até Ossessione (1943), de Luchino Visconti, e Jerichow (2008), de Christian Petzold, ambos os filmes inspirados no romance de James M.Cain, 'O Carteiro toca sempre duas vezes'. A mulher do agora patrão de Joaquim, Fernando (Miguel Borges) - também ex-recluso, um empresário manhoso que explora a apanha da amêijoa, explorando, no pior sentido do termo, os imigrantes asiáticos -, ela, tão bem interpretada por Sandra Faleiro, é esse espelho que me levou ao imaginário desses filmes de Visconti e de Petzold. É um espelho para Joaquim, porque também ela é uma prisioneira, da vida, tal como ele agora.
Tornar-se amante da mulher do patrão e depois, ambos, engendrarem e/ou até materializarem o assassinato de Fernando, como fizeram cada um à sua maneira, Visconti e Petzold, seria talvez demasiado previsível - ainda que a previsibilidade não seja necessariamente um mal no cinema -, pelo que Faleiro, na sua versão discreta de loira fatigada e desalinhada do marido mafioso, que desde logo se aproxima com ternura de Joaquim, não unirá os dois homens num triângulo amoroso, mas terá o condão, não por meio de atração física, mas sim por uma convicta e solidária conexão emocional com o empregado, de gerar um (não) triângulo fatal - num dos mais extraordinário planos do filme, vemos os três sentados à mesa, a grande mesa de jantar no jardim da vivenda da quinta do casal, e enquanto Fernando, numa das cabeceiras, prossegue a sua verborreia de manipulação do vulnerável Joaquim na cabeceira oposta, está sentada junto a ele, bem afastada do marido, a mulher (Faleiro): um quase-triângulo se desenha geometricamente na imagem. Quando Joaquim, perto do final, se apresenta já vestido com o fato engomado carinhosamente pela mulher do patrão, diante desta, a anunciar a partida e em busca de Fernando, ela diz-lhe, como últimas palavras, que ele está no armazém, sozinho, emergindo depois um silêncio audível e prenunciador.
A mulher do patrão é objetivamente o espelho que melhor reverbera a prisão que toma conta de Joaquim. A mulher tailandesa (Jani Zhao) - uma espécie de porta-voz (ainda que a voz de reivindicação seja apenas emitida para pedir socorro e só ouvida por Joaquim) daquele grande grupo de trabalhadores imigrantes que apanham amêijoa no Tejo - é um outro espelho para Joaquim, mas além da prisão na vida, também na quimera. Num jantar a dois, numa roulotte, servidos a Sagres e bifanas, ela confidencia-lhe o sonho de abrir um restaurante juntamente com a irmã, que trabalha nas estufas agrícolas no Alentejo - na curta 'Monte Clérigo' (2023), Luís Campos trouxe-nos também essa realidade para o cinema, e, tal como Cayatte em 'O Barqueiro', não houve pejo, e bem, em mostrar e denunciar o preconceito, a discriminação, a xenofobia e o ódio visceral que paira na nossa sociedade perante imigrantes asiáticos, aqueles que fazem trabalhos não qualificados que os portugueses se recusaram, há muito, a fazer. Joaquim também sonha, em comprar o piano para se reaproximar da filha. Mas os sonhos de Joaquim, à noite, esbarram nas grades, as mesmas que a câmara nos mostra como sendo aquelas que vedam agora janela do seu quarto. A mulher esposa, mãe da filha, também ela é uma prisioneira da vida, não contendo o esgar de fardo, no único dos telefonemas com Joaquim em que vemos o seu rosto. E a filha, naquela versão delicada e singela que Madalena Aragão tão bem oferece ao filme, vai buscando libertação, pelas mãos, que tocam o piano, mas também com o corpo todo, naquele êxtase sensorial numa festa psicadélica.
'O Barqueiro' é um filme que suscita muitos olhares.
'O Barqueiro' (2026), de Simão Cayatte
Visionado no Cinema Nimas
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