DA VAGA REALIZADOR DO MÊS

Stéphane Pires • 10 de março de 2026

Jerichow, de Christian Petzold: triângulo em (des)construção


Antes de Jerichow (2008), filme de Christian Petzold - escolha DA VAGA REALIZADOR DO MÊS para Março -, 'O Carteiro toca sempre duas vezes', romance de James M.Cain, já tinha servido como base de inspiração para Ossessione (1943), a primeira longa-metragem de Luchino Visconti. Se nessa obra do neorrealismo italiano o triângulo composto pelo marido (Bragana, o ator Juan de Landa), pela mulher (Giovanna, a atriz Clara Calamai) e pelo amante (Gino, o ator Massimo Girotti) acaba por se desintegrar, na sua forma, sensivelmente a meio do filme - com o crime do marido engendrado pela mulher e pelo amante -, por sua vez, em Jerichow, o triângulo resiste formalmente intacto até à derradeira sequência. Digamos que no filme de Visconti o triângulo se desfaz materialmente para depois se recriar com linhas que se unem e corroem pela angústia e pela culpa, enquanto que no filme de Petzold o triângulo sobrevive até aos instantes finais em processo de (des)construção permanente, segurado pela moral. O cineasta germânico parece esperar mesmo pelo final do filme para visualmente nos entregar essa imagem geométrica de um triângulo que se constrói, para a seguir se desconstruir - imagem essa que tão bem açambarca toda a narrativa.


Na mesma praia onde os mesmos três vértices - marido (Ali, Hilmi Sozer), mulher (Laura, a fabulosa Nina Hoss) e futuro amante (Thomas, Benno Furmann) - se juntaram numa fase prematura do filme e onde o prenúncio da morte fora mais do que avistado numa sintonia de olhares entre Laura e Thomas, em plongée e contre-plongée perante o precipício, eis que o triângulo se constrói geometricamente num plano em qua câmara salta para a nuca do amante - saído dos arbustos - que assim une as linhas com o marido e a mulher, completamente imóveis, de frente um para o outro. Este plano é o postal do filme e enriquece ainda mais esta maravilhosa sequência final, a três, com o mar como testemunha, toda ela (a sequência) rica em suspense hitchcokiano - nós espectadores sabemos, mas o marido não sabe, e logo a seguir nós espectadores continuamos a saber e agora é ela que não sabe que o marido já sabe, até ao momento em que ela olha para a mão dele e descortina o isqueiro-carrinho (pertença do amante), a mais-que-perfeita Arma de Tchekhov introduzida por Petzold no filme -, toda ela (a sequência) rica em surpresa - a partir do momento em que os três sabem que todos sabem, a câmara salta novamente para a nuca, agora para as nucas dos dois amantes, que caminham como quem segue para o cadafalso, de um formato desconhecido -, e toda ela (a sequência) rica em moral - o marido Ali descobre uma razão para seguir viagem (não foi, mas poderia ter sido naquele comboio vermelho que vimos passar umas três vezes ao longo do filme, quebrando sempre a imobilidade patente na paisagem); a mulher Laura solta genuínas lágrimas, primeiro, corrida, depois, e ecoa o som final do filme: " Ali"!; o amante Thomas obedece, baixa guardas e estaciona.


Apesar dos maços de notas de euros que Thomas perde de vista logo no início do filme, relegando-o a uma pobreza de vagabundo, apesar de outros maços e notas de euros que Thomas vê espalhadas no banco do carro acidentado de Ali, que gere um sem-número de cafés e roulottes de outros imigrantes como ele (turco) na Alemanha, apesar das dívidas que prendem Laura a Ali, ainda assim, é a moral que fica associada à fatalidade ao invés da componente material. A gratidão de Thomas pelo patrão Ali, a admiração de Ali pelo empregado Thomas, a compaixão de Laura pelo marido Ali, o sentimento de propriedade com um quê de emocional que isso pode ter de Ali pela mulher Laura, vão robustecendo um triângulo que se abala pela atração fatal de Thomas por Laura e a atração por uma nova vida que Laura vê em Thomas, abalos esses no triângulo que se sentem sempre que a esclera - ou a parte branca do olho - dos olhos de Laura se expande, assim que ela estende ou ergue o olhar para o amante: como resistir a tal volúpia suscitada por tamanho magnetismo no olhar de Laura/Nina Hoss? Até a moral se pode perder, mas aí cabe a Petzold intervir.


Jerichow (2008), de Christian Petzold

Visionado na Mubi Portugal


Adquira o  Livro NA VAGA DE ROHMER - Escritos sobre (65) filmes | O ANO ZERO

À venda em Portugal

À venda no Brasil

Jerichow (2008), de Christian Petzold

Compartilhar

'Maria Vitória'
Por Stéphane Pires 3 de março de 2026
'Maria Vitória', de Mário Patrocínio: filha do fogo
Exhibition
Por Stéphane Pires 26 de fevereiro de 2026
Exhibition, de Joanna Hogg: reflexos de um casamento
'Terra Vil'
Por Stéphane Pires 19 de fevereiro de 2026
'Terra Vil', de Luís Campos: resistir à tragédia, com freio sociomoral
Mais Posts