DA VAGA DE SALA

Stéphane Pires • 13 de março de 2026

'O Estrangeiro', de François Ozon: desalinhamento com o livro culminado no último plano


É difícil ir acompanhando as atualizações da filmografia de François Ozon tendo em conta o ritmo frenético com que o cineasta francês estreia novos filmes. De todos aqueles que vi, apenas desgostei de 'O Amante Duplo' (2017), um filme insuportável em que a habitual carga onírica presente no cinema de Ozon  resvala para um nonsense perturbador. Por sua vez,   Swimming Pool (2003);  5x2 (2004); Le temps qui reste (2005);   Dans la maison  (2012);   ou Grâce à Dieu (2018), são filmes bastante apreciáveis. Este fazer filmes em catadupa de Ozon, sensivelmente à média de um (filme) por ano desde Sitcom  (1998), a sua primeira longa-metragem, revela necessariamente uma tremenda vitalidade. Essa vitalidade é depois repercutida no modus essendi do seu cinema:  filmes essencialmente para serem vividos, não tanto para se sentirem de um modo imerso, muito menos ainda para serem pensados. São filmes que se desenvolvem pelo argumento em detrimento das imagens, são  filmes que nos entretêm de início ao fim, são filmes que não abdicam do elemento surpresa, são filmes que têm sempre coisas a acontecer, são filmes com histórias que mudam do início para o fim, por essa necessidade intrínseca de fazer acontecer, mas não por prosseguir a busca de um happy end. Diria que o romance de Albert Camus, 'O Estrangeiro', cai que nem uma luva para o cinema de Ozon  calçar (adaptar, no caso). Apesar do oxímoro que constrói a personagem de Meurseault, feito de uma simplicidade complexa, o livro de Camus vive-se mais do que se se pensa, pelo menos até ao virar da última página - já depois de lido, a história pode ser outra. Se alguém sair da sala de cinema antes do último plano de 'O Estrangeiro' (2025), filme de François Ozon, e, além disso, não tenha atentado a um ou outro momento mais colateral da narrativa, poderá muito bem assumir que o filme é uma réplica mais do que perfeita do livro. Porém, o filme vale por inteiro e só termina após o derradeiro plano, como tal, o desalinhamento com a obra de Camus é evidentemente político.


Não há mesmo como não começar pelo final do filme. Ao contrário do livro, o último momento do filme não é de Meurseault (Benjamin Voisin). O último plano é entregue à campa improvisada do árabe assassinado na falésia da praia onde tudo aconteceu; uma campa onde é revelado o nome do jovem árabe que não ganhara identidade no romance de Camus; uma campa feita de terra com pedrinhas à volta e revestida de anonimato e abandono social apenas quebrados pela irmã, que chora a sua morte, sozinha, de frente para o mar. A escolha deste plano para encerrar o filme, como que dando um final diferente à história de 'O Estrangeiro', atribui-lhe uma forte dimensão política, feita de humanismo, dignidade e respeito pelo povo colonizado - no caso, pelos argelinos no seu próprio país, Argélia, na sua própria cidade, Argel, por altura da colonização francesa, mais propriamente nos anos 40 -, uma pequena reparação histórica, digamos. E se não deixa de ser surpreendente esta escolha de Ozon, é certo que ao longo do filme se vão dando indícios, um tanto ou quanto disfarçados, que poderiam culminar neste epílogo. A impecável e até implacável adaptação, qual réplica, inclusive na caracterização das personagens - parece que antes de vermos o filme já as imagináramos assim, tal e qual, na leitura do livro -, vai sendo aqui ou ali pontuada com momentos fugazes, quase não-acontecimentos, que destoam da narrativa original de Camus. O sentido é sempre o mesmo: sinalizar a presença e a vida árabe na cidade, e na história, que é quase obliterada no livro. Alguns exemplos: o som da chamada (Adhan) para a oração islâmica que ecoa da rua, das mesquitas, até ao quarto de Meurseault; a placa que proíbe a entrada a indígenas (assim se referem os franceses aos árabes argelinos) na sala de cinema onde Meurseault e Marie (Rebecca Marder)  vão ver Le Schpountz  (1938), de Marcel Pagnol; a mãe árabe que com uma ligeira bofetada proíbe o filho de se deleitar com os beijos ardentes e espojados de Meurseault e Marie no autocarro; ou a breve conversa entre Marie e a irmã da vítima na sala de audiências no tribunal, agora vazia, após o término do julgamento.


Já a caminho do final, Ozon  serve-se ainda da sua habitual camada onírica para assim reforçar o seu cunho identitário na obra, quando decide dar forma e corpo à defunta mãe de Meurseault - a lembrar o seu filme anterior 'Quando Chega o Outono' (2024),   em que a mãe, viva, tem um derradeiro encontro com a filha defunta, precisamente antes dela própria também morrer - num caminho deserto, árido e penoso em direção ao cadafalso, imaginado, por agora. À parte da cena final, esta é a melhor sequência do filme: a mãe como última paragem que separa Meurseault da decapitação. Pena é que a cena tenha sido tão apressada.


Não surpreende, Ozon  falha onde esperava precisamente que falhasse: na sua impaciência, incapacidade ou indisponibilidade para deixar emergir os não-diálogos, para prolongar os silêncios, para estender os não-acontecimentos, para dar tempo ao espaço que tão bem conseguiu capturar nesse caminho onírico de Meurseault entre a mãe e o cadafalso, ou ainda no cortejo fúnebre da mãe, pela mesma paisagem árida e abrasiva, ou ainda antes, na sala fria e exígua, feita de vácuo, em que se dá o velório da mãe, onde Meurseualt, o velho porteiro e os restantes velhos do lar passam aquela noite, uma noite que pedia para ser estendida tão mais tempo. Ozon  concebe o espaço, mas subtrai-lhe constantemente o tempo sempre que o tédio possa pairar, pairar como uma ameaça ao seu cinema; tempo esse que não lhe falta para as conversas de Meurseault : com os vizinhos, primeiro, com o padre depois.


'O Estrangeiro' (2025), de François Ozon

Visionado no Cinema Ideal


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'O Estrangeiro' (2025), de François Ozon

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