DA VAGA REALIZADOR DO MÊS

Stéphane Pires • 21 de março de 2026

Barbara, de Christian Petzold: seres em reparação


Uma história que se sobrepõe à História. Como matéria que reveste a tela na qual a história vai ser ilustrada e contada, eis a História, em pedaços dela, nos filmes de Christian Petzold. A minúcia de índole arquivista, documental, geográfica ou temporal de um determinado fragmento da História não cabe nas histórias do cineasta alemão, à História cabe-lhe preencher um pano de fundo, um imaginário que dê contexto, mas sem ofuscar, sem tapar a narrativa que brota como uma espécie de reminiscência para nós, espectadores. Em Phoenix (2014) e em Transit  (2018)  reverberam ocorrências advindas da segunda guerra mundial, por entre as indefinições da morte, concedendo-a a quem sobreviveu (Phoenix) e negando-a a quem morreu (Transit); já em Barbara  (2012), é uma Alemanha dividida em duas, como consequência ainda e sempre da mesma (segunda) guerra (mundial), que exala uma evidente carência de reparação. Cabe pois a Nina Hoss, que é Barbara  e Barbara  é o filme, vinda de Berlim para o Leste, da RFA (República Federal da Alemanha) para a RDA (República Democrática Alemã), absorver, viver e conferir, tudo junto, o humanismo como fragilidade individual, mas, ao mesmo tempo, como o antídoto reparador do coletivo. Um humanismo como resposta aos totalitarismos e seus derivados.


Quando Barbara (Nina Hoss) larga o autocarro que a trouxe desde Berlim até à frente do hospital onde vai passar a desempenhar as suas funções enquanto médica - precisamente logo a seguir ao plano inaugural que só poderia ser o rosto dela com aquele olhar magnético em que a esclera (a parte branca do olho) cresce e nos hipnotiza, aliás, o derradeiro plano voltará também a ser dela, do rosto dela, do olhar dela, de Barbara, de Nina Hoss - e se senta, de seguida, no banco de jardim a fumar o cigarro que queima o tempo que fata para se apresentar ao serviço, eis que num plano geral se dá a mira, dupla, sobre ela, a partir da janela do edifício. É sob aquela mira dupla que Barbara passará a estar naquela terra no leste da Alemanha, algures na Saxónia: sob a mira emocional do colega médico André (Ronald Zehrfeld), que não resiste ao coup de foudre, e, por outro lado, sob a mira vigilante do polícia à paisana (Rainer Bock). Nessa sequência, quando esse homem, não identificado pela indumentária, diz ao médico - este sim, identificado pela bata branca - que Barbara nunca chega ao trabalho, um segundo que seja, nem antes nem depois da hora, percebemos desde logo que só poderíamos estar perante um Stasi (a famigerada polícia secreta da RDA). E mesmo este agente da Stasi (o nome da polícia nunca é mencionado), que ronda, vigia, faz vasculhar e revistar Barbara na casa escolhida para ela viver enquanto médica-presa-política, tem direito ao humanismo que Petzold  confere ao filme. Petzold  humaniza-o pelo sofrimento. Vemo-lo a sofrer com a doença terminal da esposa, sob os tratos a morfina do médico André, numa incapacidade humana de fugir à dor, assim como a dor que, enquanto Stasi, terá produzido a tantos - as tais reminiscências históricas paras as quais Petzold  nos convoca. A imagem daquele homem, agarrado sem amarras e cordas a uma cadeira, impotente no controlo daquelas operações, isto perante o olhar, à distância, de Barbara, perplexa, é de uma humanização desconcertante.


A escolha do hospital como centro nevrálgico da história, como materializador de um humanismo que tantas vezes se perde(u) na História (mundial), bem pronunciado nos cuidados que a equipa médica chefiada por André, e agora com Barbara, concede, é bem metafórica de uma evidente necessidade de reparação, de um país, de um povo. É pois a partir da dedicação fervorosamente humanista de André, colocada em prática no tratamento dos pacientes, que Barbara vai amolecendo a frieza impenetrável, vertida naquela geometria vertical que o corpo de Nina Hoss tão bem exibe, perante os avanços românticos do colega-chefe. Por mais que Petzold  nos dê, como noutras ocasiões, passeios de bicicleta pelos bosques, por entre a natureza - como em Miroirs no.3   (2025), a paisagem natural de um e de outro filme assemelham-se tanto -, é no hospital, e a partir dele, que se dá a combustão, do humanismo, acima de tudo, e quiçá de um amor. Todavia, é inegável que a introdução da paisagem natural nos percursos casa-hospital tem o condão de nos conceder ar, oxigénio, de nos fazer sentir o vento que esvoaça os cabelos de Barbara, de nos fazer respirar melhor o filme. E se em Jerichow (2008)  notávamos a presença do comboio, a passar, no horizonte, mas nunca como transporte para as personagens, reforçando a imobilidade daquele triângulo relacional, por sua vez, em Barbara,  vemos a protagonista a utilizar o comboio, consolidando a ideia da necessidade de partir dali, onde o nome Torgau (terra e lugar de repressão que a História nos deu mais a conhecer do que a história do filme) ressoa de tão perto. Ainda que essa necessidade possa ser maior para alguém que não Barbara, é o humanismo, o seu humanismo reparador inspirado, alimentado, em reciprocidade com André, que decidirá.


Barbara (2012), de Christian Petzold

Visionado na Mubi Portugal


Adquira o  Livro NA VAGA DE ROHMER - Escritos sobre (65) filmes | O ANO ZERO

À venda em Portugal

À venda no Brasil


Barbara (2012), de Christian Petzold

Compartilhar

'O Estrangeiro'
Por Stéphane Pires 13 de março de 2026
'O Estrangeiro', de François Ozon: desalinhamento com o livro culminado no último plano
Jerichow
Por Stéphane Pires 10 de março de 2026
Jerichow, de Christian Petzold: triângulo em (des)construção
'Maria Vitória'
Por Stéphane Pires 3 de março de 2026
'Maria Vitória', de Mário Patrocínio: filha do fogo
Mais Posts