DA VAGA DE SALA
'Bulakna', de Leonor Noivo: guerreiras na invisibilidade
Desde pequenos que a escola através dos seus compêndios nos familiariza com o nome de Fernão de Magalhães. No meio da sua heroica saga de circum-navegação da Terra parece não haver espaço para a consagração de outros nomes, a quem a História se encarregou de atribuir invisibilidade - Henrique de Malaca é um deles. Escravo adquirido por Fernão Magalhães aquando da conquista de Malaca, na Malásia, e batizado de Henrique, este homem viria a ser absolutamente crucial para comunicar com os nativos nos territórios do Arquipélago Malaio, aos quais a expedição ia chegando, incluindo as Filipinas. É precisamente numa das ilhas Filipinas, em Mactán (1521), que Fernão Magalhães sucumbe mortalmente - enquanto Henrique de Malaca sobrevive - numa batalha contra uma força de guerreiros nativos, comandados pelo líder Lapulapu - reconhecido como o primeiro herói filipino na resistência ao colonialismo. E deste confronto de Mactán, entre colonizadores e nativos, emerge a invisibilidade histórica de um outro nome: Bulakna, a mulher guerreira que terá desferido o golpe fatal a Fernão Magalhães, assim ouvimos um velho sábio filipino narrar a História dos nativos a um grupo de crianças em 'Bulakna' (2025), a primeira longa-metragem de Leonor Noivo, depois de um já largo percurso feito de curtas e médias (metragens). O mesmo velho sábio, na mesma conversa, é quem evoca o nome e a memória de Henrique de Malaca, rotulando-o de primeiro homem que deu a volta ao Mundo. O resgatar da memória destes dois nomes - do escravo Henrique de Malaca e da guerreira Bulakna -, retirando-os, através do filme, da invisibilidade a que a História universal os vetou, funciona como condão para refletirmos sobre a discriminação, a xenofobia ou o racismo manifestados nas sociedades ocidentais perante a inclusão de imigrantes provenientes de territórios e povos que foram colonizados - pelo ocidente. Ao mesmo tempo, a escolha da guerreira Bulakna para emprestar o seu nome ao filme funciona também como uma outra camada: para reverberar a força, a coragem, o poder da Mulher, ainda que muitas vezes na invisibilidade.
No seu filme anterior, 'Madrugada' (2021), Leonor Noivo já explorara a invisibilidade a que determinadas mulheres são submetidas, pelo trabalho e consequentemente pela sociedade. Aí, Leonor Noivo acompanha a jornada laboral de três mulheres que limpam os quartos de uma residencial no centro da cidade. A referida jornada começa antes da chegada ao local de trabalho, pois há sempre um longo caminho a percorrer nos transportes públicos que partem da periferia para esse centro, sempre e ainda pela madrugada de uma cidade que ainda dorme para quase todos. Em 'Bulakna', a realizadora debruça-se novamente na vida de mulheres que fazem trabalhos não qualificados - empregadas domésticas -, na senda da invisibilidade que abordara em 'Madrugada; mas agora a cineasta portuguesa vai mais longe, parte em busca da origem. Ou seja, não lhe basta apenas constatar a vida presente da mulher-invisível (acompanha uma imigrante filipina, Norma Canda, que trabalha como empregada doméstica há alguns anos em Lisboa), precisa de respostas reais, no terreno, aquelas que estão na base e que depois desaguam na submissão à invisibilidade. Em paralelo no filme, Leonor Noivo acompanha também o dia-a-dia de uma jovem filipina, Melissa (Althea Aruda) - aspirante a mulher-invisível algures no estrangeiro -, numa pacata terra cercada por água, das chuvas que não param e do lago que transborda, longe da fervilhante Manila, a capital-metrópole à qual só chegamos quase no final do filme à boleia de Melissa, que ali aterra, naquele turbilhão de gente e buzinadelas, para a obrigatória formatação das agências de recursos humanos, quando decide levar avante a vontade, que é também necessidade, de partir - após conselhos, advertências e tentativas de dissuasão.
Naquele dia-a-dia de labuta daquelas mulheres filipinas, assente no trabalho de mãos, incluindo nas barcas a remo, naquela terra de campo e água, emerge a Mulher como força motriz, um pouco à semelhança do que Manuela Serra nos mostrou com o seu imprescindível 'O Movimento das Coisas' (1985). Sempre que o filme se deixa ficar naquela bucólica e ancestral terra filipina, 'Bulakna' partilha e recupera esse eco-feminismo de 'O Movimento das Coisas'. Assim como Manuela Serra, a câmara de Leonor Noivo procura também o revestimento poético daquele quotidiano, assente na paisagem natural - o verde húmido da vegetação, o cinzento opaco do lago e do céu que quase se fundem num só, e a enfatização do ruído da chuva, que ouvimos com frequência e com a demora devida. E quando as dúvidas, indefinições, se adensam na jovem que pensa em emigrar, a paisagem natural abre-se como vasto horizonte onde ela se pode debruçar. Está também bem patente uma imagética de partida, de largada, num plano geral que é repetido algumas vezes, onde vemos as barcas alinhadas na margem, em terra, mas prontas para se mandarem à água. E por falar em água, a sequência inicial que desemboca num de regard caméra do miúdo que segue na barca, um olhar de quem tem saudades, da mãe que partiu, desperta-nos desde logo para outro ângulo da invisibilidade: a vida daqueles que ficam, dos filhos.
Quando ouvimos os mandamentos da invisibilidade que a empregada doméstica deve seguir, voltamos a Lisboa e a quem já faz deles uma prática mais do que suficiente para conseguir arrumá-los e discorrê-los em itens. Aqui, a câmara de Leonor Noivo aproveita a paisagem arquitetónica proporcionada pela faustosa moradia para conceber uma invisibilidade formal, com a figura de Norma a dissipar-se nas grandes portas envidraçadas ou a embutir-se, e confundir-se, com o branco da farda no branco das paredes.
'Bulakna' é um filme importante, especialmente neste tempo que vivemos. Importante, mas sereno, feito de integridade e respeito, e sem drama, até porque "para drama já chega a vida", como ouvimos dizer a certa altura uma das mulheres quando estão à procura de uma música na rádio para ouvirem.
'Bulakna' (2025), de Leonor Noivo
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'Bulakna' (2025), de Leonor Noivo



