DA VAGA DE SALA - Especial IndieLisboa

Stéphane Pires • 9 de maio de 2026

Blue Heron, de Sophy Romvari: memórias do caos sob o filtro da candura


Depois de Carla Simón, com 'Verão 1993' (2017), depois de Clara Roquet, com Libertad  (2021), depois de Jamie Dack, com 'Nunca Chova na Califórnia' (2022), depois de  Charlotte Wells, com Aftersun  (2022), é agora a vez da húngara Sophy Romvari trazer-nos uma espantosa longa-metragem de estreia feita de contornos autobiográficos - todos estes filmes ficaram a reverberar cá dentro durante um tempo largo, algo que Blue Heron(2025), em exibição esta sexta-feira no IndieLisboa, parece também estar a querer fazer. Entre as obras citadas, talvez seja mesmo com 'Verão 1993' que Blue Heron comunique de forma mais aproximada, a ter em conta as tenras e similares idades das protagonistas de ambos os filmes, alter-egos de Simón e de Romvari. No fundo, é essencialmente a partir dos olhos daquelas duas meninas que os filmes se vão construindo, é a partir dos seus olhares que a(s) câmara(s) se ancora(m) e nos mostram a realidade a dar-se pela realidade delas. Contudo, se em 'Verão 1993' a pequena Frida é a protagonista central da história - acabou de perder os pais e foi adotada pelos tios -, em Blue Heron, a pequena Sasha é uma espécie de personagem secundária numa família que gira em torno da imposta centralidade do problemático irmão/filho mais velho. Deste modo, Romvari/Sasha ganha espaço e distância para se colocar mais no posto de observadora, como uma autêntica testemunha privilegiada no seio daquela vida familiar. Nos fragmentos de memória que a passagem do tempo fatalmente vai depurando ou lapidando, naquele (fatídico?) Verão para onde a realizadora nos leva a partir de uma panorâmica pelo céu, como seguindo nas asas de uma garça azul, é sob um filtro de candura que observamos a gestão, ora muda ora ruidosa, de uma caos emocional permanente.


A certa altura no filme, o pai põe a câmara de filmar nas mãos de Sasha, enquanto esta está sentada na relva do jardim da casa, onde partilha o espaço com os dois irmãos gémeos, e assim fica, estacionada, a olhar para a invasão dos polícias por ali adentro que escoltam Jeremy - o problemático irmão mais velho - com as mãos algemadas atrás das costas. Aparentemente, a câmara até está desligada e só foi parar às mãos de Sasha porque o pai ali a poisou para ir acorrer à situação; mas esse plano da câmara esquecida e ao mesmo tempo embutida no seu corpo consubstancia e plasma magistralmente o sentido e a existência do próprio filme. Na verdade, é sob a lente de Sasha que olhamos para o quadro daquela família húngara que emigrou para a ilha de Vancouver, no Canadá. Assim é até mais ou menos a meio do filme, altura em que Romvari decide antecipar o regresso ao presente, à (sua) idade adulta, onde Blue Heron começara. Sim, antecipar; diria que a realizadora húngara volta demasiado cedo ao presente - esperava que esse retorno se desse como um epílogo, apenas - para essencialmente debruçar-se na patologia do irmão Jeremy, tão traumática para a família, e, de repente, começamos a ouvir especialistas a teorizarem sobre. Esta transição para o presente cria um certo deslaçamento, desliga-nos daquele Verão de memórias tão bem retratado sob o filtro da candura - e da ternura, também - cujo expoente máximo ganha forma naquela revelação artesanal de fotografias no laboratório caseiro em que sob a orientação do pai, os quatro filhos, incluindo Jeremy, se entregam a dar forma, matéria, a um momento de comunhão capturado imediatamente antes - ainda que esta cena venha no seguimento de uma sequência em que a câmara nos vai entregando múltiplas solidões, no mesmo espaço (a casa), no mesmo instante: Jeremy sozinho, Sasha sozinha, o pai sozinho, os gémeos sozinhos um com o outro, a mãe estava fora.


De repente, sentimos falta, de olhar pelos vidros das janelas, de dentro para fora e de fora para dentro, de casa ou do carro, de olhar de longe, com uma certa distância e até imobilidade, para o que acontece, de olhar do lado de cá da porta, de olhar para os rostos refletidos. Dá-se uma quebra sensorial e ao mesmo tempo de abstração, no filme, com essa transição temporal antecipada, mas, ainda assim, emendada de seguida, a caminho do final, quando Romvari decide trazer a Sasha do presente de volta a casa naquele Verão. O filme é resgatado, voltamos a sentir o pulsar quando a câmara faz dos dois pais reféns num longo plano fixo diante dela - dela, da câmara, e dela, Sasha, ainda que com outra pele para eles - e acicatado pelo som que ecoa de desenhos animados na televisão onde os quatro irmãos estão esparramados a olhar para ela (a televisão) no quarto ao lado; é um ruído que simultaneamente fere e suaviza o momento. Romvari mostra aqui a muita gente como se pode tão bem usar ruídos diegéticos em vez de introduzir por dá cá aquela palha música, aliás, já antes, usara magistralmente o som das pancadas da bola na parede - de Jeremy no exterior da casa - para acionar a fricção no interior. Ao teletransportar-se para aquela casa, naquele longínquo Verão nos anos 90, Sasha, entretanto realizadora, funde-se e confunde-se com Romvari, exalando assim a magia do cinema.


Blue Heron (2025), de Sophy Romvari

Visionado no IndieLisboa, no Cinema São Jorge



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Blue Heron (2025), de Sophy Romvari

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