DA VAGA DE SALA
'Maria Vitória', de Mário Patrocínio: filha do fogo
Do território para quem o habita. Diria que é sempre por esta ordem ou ancorado nesta premissa que o cinema de Mário Patrocínio floresce. Território esse que tanto pode ser um lugar reconhecido do ponto de vista geográfico e social, como vimos em 'Complexo - Universo Paralelo' (2010) e em I Love Kuduro (2014), duas longas-metragens de não-ficção, como ser um não-lugar, assim testemunhámos nas curtas ficcionais 'O Afinador de Silêncios' (2023) e 'Antes do Nascer da Lua' (2024). O território como lugar onde se cultivam vidas, por entre a História e a cultura, de onde depois se colhem os frutos do povo, em formas diversificadas: hábitos, ritos, crenças, arte, música, guerras. As histórias que Mário Patrocínio nos mostra e conta nestes filmes germinam sempre do território, que está sob a sua exploração antropológica, e em relação intrínseca com este; exploração essa que se verte também, e depois, em forma de expressão visual, ora com a câmara a palmilhar a terra como mais um corpo, ora com a câmara abrindo o campo para que possamos mirar de longe, ora com a câmara rodando em torno da paisagem - assim foi no território do Complexo do Alemão, bairro de favelas do Rio de Janeiro, em 'Complexo - Universo Paralelo'; assim foi no território dos bairros degradados de Luanda, em I Love Kuduro; assim foi nos territórios feitos de não-lugares, bíblicos, lunares e/ou apocalípticos, em 'O Afinador de Silêncios' e 'Antes do Nascer da Lua'. Já em 'Maria Vitória' (2025) - primeira longa-metragem de ficção de Mário Patrocínio - o território parece emergir de uma mescla dessas duas dimensões dos trabalhos anteriores do realizador: entre o reconhecimento geográfico e social que as imagens possibilitam e a ideia de um não-lugar que o filme faz também por preservar. Desse não-lugar por entre a Serra (da Estrela) emana o fogo.
Maria Vitória (Mariana Cardoso) é a filha do fogo. O fogo omnipresente que abre o filme mesmo sem se ver, isto num plano inaugural em que cabe à força implacável protagonizada pelo ruído e pela presença do helicóptero - recolhe água na barragem quase em cima da então ainda pequena criança Maria Vitória ao colo do irmão (Miguel Nunes) - transportar o fogo que arde naquele território para o domínio do imaginário. Travelling para trás no rosto de uma rapariga de olhos-negros-azeitona e, simultaneamente para a frente na temporalidade do filme, eis a Maria Vitória do presente, a rapariga prestes a completar o 12.º ano e que é guarda-redes da equipa de futebol masculino local - na ausência de formação feminina - enquanto a idade ainda permite, tendo no pai (Miguel Borges), viúvo, o seu obsessivo mentor. O fogo, lá atrás no tempo, num dos repetidos incêndios de Verão naquele território (realidade e ficção a tocarem-se) dilacerou a família de Maria Vitória e deixou-a refém da cegueira obstinada do pai em querer fazer da filha uma jogadora de futebol profissional. Na casa escura e exígua dos dois - aqui a fazer lembrar 'Terra Vil', de Luís Campos, filme com o qual há alguns pontos de contacto, particularmente na relação de sobrevivência pai-filho(a) pós-tragédia, pós-partida da mãe -, o fogo continua presente, ainda que como fogo amigo que aquece na lareira - ouvimos também o crepitar - e cozinha no fogão com uma vigorosa chama.
De um regard caméra de Maria Vitória logo nos minutos iniciais, enquanto treina afincadamente, até ao regard caméra que encerra o filme, igualmente no campo de futebol a defender a baliza, e por entre um processo de descoberta, transformação e libertação que a rapariga vai vivendo, potenciado especialmente pelo regresso do irmão mais velho a casa, é deveras interessante observar esta continuidade de história de vida, que resiste à disrupção. Não temos, e nem ficamos com, a certeza de que Maria Vitória quer mesmo ser futebolista como o pai almeja até ao final do filme, mas também não fica a certeza do seu contrário. Resiste o filme também, e bem, à exploração de lugares-comuns que poderíamos antever como contornos previsíveis desta história, uma rapariga num mundo de rapazes e homens: preconceito e assédio sexual. Resiste, sim, mas não deixa de pontuar e sinalizar, quer o preconceito (a um dado momento na sala de aula, um colega com os gemidos que ela possa fazer enquanto guarda-redes), quer o assédio sexual (numa conversa individual o treinador coloca-lhe a mão no ombro e parece querer abrir caminho a algo mais).
E é a mexer no fogo, na lareira de casa que é alimentada com o trabalho do pai lenhador, que o irmão reaparece surpreendentemente na vida do pai e da irmã. Bruno, o filho-irmão, aquece o filme de sobremaneira, quer na perfuração daquela dilacerada família, quer na exploração do território. A harmonia criada entre a figura de Bruno - feita de ternura misturada com laivos de saudade e raiva, exponenciada de modo sublime pelo rosto de olhos aguados e sorriso fácil, acutilante e desafiador - com os diálogos cortados, inacabados e que nos entregam muitas pontas soltas do passado para irmos costurando à nossa medida, com a medida de cada espectador, é uma harmonia absolutamente extraordinária. Há dois planos que são bem ilustrativos do impacto da presença de Bruno nessas duas dimensões interligadas do filme: família e território. Na família, um plano-sequência em que a câmara se movimenta suavemente pela mesa de jantar de dois que passou a três em que Bruno, o corpo estranho, vai tentando abrir aquela muralha fortificada entre pai e filha. No território, ao volante do clássico que era da mãe, num travelling para a frente a partir do banco traseiro do carro, Bruno conduz a irmã pela estrada da Torre abaixo, no primeiro momento só a dois dos irmãos após longos anos, e com a paisagem daquele território a entrar-lhes e a entrar-nos pelo para-brisas - e bem que este plano poderia durar um pouco mais! E os passeios de Bruno ao volante daquele clássico pelas estradas da serra, sonorizados com música de Edgar Valente e Bernardo D'Addario, convocam a memória e a saudade de quem regressa a uma topografia sentimental algures no tempo - pensei em mim próprio quando regresso a Trás-os-Montes.
O fogo, sempre o fogo, aconchega e é testemunha do processo de transformação e libertação em marcha de Maria Vitória, naquele delicioso momento, repleto de sensualidade e de uma genuína cumplicidade entre Maria Vitória e a amiga Teresa, num culminar perfeito após aquele vagueio de mota noturno, feito de cabelos ao vento, e cabeças tombadas uma na outra, a lembrar aquela última cena de Fallen Angels (1995), de Wong Kar-wai. Isto depois daquele reflexo de rosto em mutação no espelho, até fixar num rosto duplo, de sorriso a duplicar, desamarrando possíveis e novas Marias Vitórias.
'Maria Vitória' (2025), de Mário Patrocínio
Visionado no screener da APM (Actions Per Minute)
Adquira o Livro NA VAGA DE ROHMER - Escritos sobre (65) filmes | O ANO ZERO
À venda em Portugal
À venda no Brasil

'Maria Vitória' (2025), de Mário Patrocínio



