Se no último filme (que aliás foi o primeiro) DA VAGA DE CASA a realizadora Jamie Dack partira de uma marcante experiência pessoal, íntima até, para contar uma história com o 'Nunca Chove na Califórnia' (2022), desta feita é a experiência social - que não deixa de ser pessoal também - da realidade, marcada pelo dia-a-dia na sociedade em que se insere, que determina o retrato da(s) sua(s) história(s): falo-vos de Cristian Mungiu, o romeno que ganhou a Palma de Ouro com o seu '4 Meses, 3 semanas e 2 dias' (2007), e que é escolha agora DA VAGA DE CASA, mas com o filme 'O Exame' (2016). Ponto prévio: 'O Exame' é o único filme que vi até agora de Cristian Mungiu, talvez porque como o próprio disse numa entrevista recente ao Diário de Notícias (DN): "Produzimos demasiados filmes para tão pouco público; há filmes a mais e não há ninguém que tenha tempo para os ver". E foi precisamente quando li essa conversa com o DN, em Janeiro deste ano, que se deu o clique para espreitar o seu cinema: cativou-me a frontalidade e a forma abrupta com que fez o diagnóstico do estado atual do cinema de autor, com as dificuldades acentuadas em trazer espectadores para as Salas e em fazer chegar os filmes às pessoas. De seguida só posso dizer que 'O Exame' foi passado com enorme distinção enquanto uma obra de realismo social!
O céu marcadamente cinzento que vemos por estes dias em Lisboa assemelha-se ao céu que nos é dado em 'O Exame', numa terra sombria, inóspita, de cães vadios, algures perto de Cluj, cidade a norte na Roménia, na região histórica da Transilvânia; durante as duas horas do filme não vemos sol: o cinzento do dia só alterna com o escuro da noite; não vemos alegria ou felicidade: numa ausência total de risos, sorrisos ou gargalhadas, com exceção do derradeiro plano do filme em que vemos um grupo de finalistas do secundário sorridentes (uma réstia de esperança como mensagem final?); vemos, sim, tristeza, apatia, conformismo e depressão num presente irremediavelmente perdido e, em simultâneo, uma tentativa desesperada de fuga a um futuro nesta sociedade doente, onde paira a insegurança, a corrupção endémica, a injustiça, a ausência de moral, a pobreza, a indiferença. Romeo (Adrian Titieni), médico e pai de Eliza (Maria Dragus), é a peça movediça que deambula, aflitivamente e de modo desenfreado por toda a parte, quase ao mesmo tempo, com a missão final de garantir a fuga da filha deste futuro perdido, a Roménia, fazendo tudo para que ela ingresse numa Universidade no Reino Unido, através de uma bolsa de estudos. A filha, Eliza, que de início nos parece letárgica, de rosto pálido, refém do excessivo controlo paterno, sem vontade própria, vai emergindo com a sucessão de acontecimentos.
A mãe de Romeo, a quem este socorre sempre que a saúde se fragiliza, diz-lhe que a neta, Eliza, deveria ir estudar para Cluj e ficar na Roménia para mudar as coisas, ou seja, o rumo do país; ela faz parte de uma geração que ainda acredita nas potencialidades da pátria e no seu futuro, e aqui reflete um pensamento que, diria eu, é mais ou menos generalizado, globalmente, por parte das gerações mais velhas, em que impera a necessidade maior de lutar pelo rumo da nação, de não abandonar o barco, de manter as amarras presas à terra natal. Para Romeo isso é passado, foi o passado dele e também da esposa Magda (Lia Bugnar), de quem agora se está a separar, quando em 1991 optaram por regressar à Roménia, após o fim da União Soviética, mas agora é só desencanto e ele (Romeo) tem de proteger a filha do futuro: soltar as amarras, inevitavelmente.
Romeo anda numa roda-viva, em luta contra o tempo, a câmara móvel segue os seus passos quase em cima da sua nuca fazendo-nos sentir o seu quadro aflitivo, tendo ele, ainda para mais, de lidar com um incidente inesperado envolvendo a filha na véspera dos exames finais do secundário; inesperado ou talvez não, porque o filme abre desde logo com uma pedrada a partir o vidro de casa no culminar de um plano geral onde vemos o quão degradado o bairro onde vivem se encontra, não passando despercebida uma vala que está a ser aberta e o monte de terra à sua volta: é um enterro anunciado daquela sociedade que Mungiu está a mostrar-nos logo no arranque? O estaleiro de obras prolongadas e inacabadas onde se dá a peripécia com Eliza parece dizer-nos que sim: a sociedade romena que Mungiu retrata está parada para obras, obras também elas paradas.
Por mais que Romeo queira controlar a realidade, a realidade parece querer retirar-lhe o controlo, e numa sucessão de rápidos acontecimentos e sempre fiel à sua missão de garantir que a filha é admitida na bolsa de estudos no Reino Unido, Romeo vê-se enredado numa teia de favores, de um dar e receber ilícito, envolvendo influências na correção de exames escolares e nas filas de transplante de órgãos, com facilitadores e influenciadores pelo meio, como o seu fiel amigo polícia, mais um descrente e vencido desta sociedade, e o bonacheirão Senhor Bulai, vice-presidente da Câmara, para quem o que importa é as pessoas ajudarem-se umas às outras e fazer as coisas com o coração, ele que precisa de um fígado. O monstro da corrupção e do compadrio, a que o íntegro Romeo sempre fugiu, recusando as oferendas dos seus pacientes, mais do que usuais (bem, por aqui, no nosso Portugal também acontecia, pelo menos num passado; lembro-me, na minha infância/juventude, de médicos que recebiam desde garrafas de whiskey a cabritos, não enjeitando tais presentes) está agora a engoli-lo, levando-o irremediavelmente à perda do controlo, da moral primeiro, das lágrimas, no escuro da solidão, depois.
Nas suas deambulações entre o hospital, a polícia, a escola, os encontros para compadrio, a casa, a casa da sua amante, Sandra (Malina Manovici), professora e mãe de uma criança que também precisa da ajuda de Romeo, é a música clássica que ecoa no rádio do carro, da qual a filha foge refugiando-se nos seus phones; mas se nos passos (literais) de Romeo a câmara segue móvel, contrariamente a câmara fica estacionária durante as longas e necessárias conversas, sempre com Romeo e os seus diferentes interlocutores: a filha, a mulher, a amante, o amigo polícia, os influenciadores, os investigadores do ministério público. É em longos planos que estas conversas decorrem, não há cortes, é como se fosse teatro, mais, como se fosse a realidade, optando Mungiu algumas vezes por mostrar-nos apenas o rosto de um dos interlocutores (a lembrar-me aqui o 'Masculino, Feminino', [1966], de Godard naqueles longos planos de conversa a dois em que ambos falam, mas só vemos o rosto de um deles); mas quando Mungiu acha necessário que vejamos os dois rostos, ou coloca ambos em perfil, ou põe ambos de frente para a câmara, aqui em especial nas conversas de Romeo e da mulher, a sorumbática Magda, quase sempre com o cigarro segurado numa mão invariavelmente levantada e com um fumar peculiar; e, na ausência de diálogos a três (pais e filha), temos uma cena em que Romeo e Magda surgem no quarto a discutir - no plano da moral e dos valores com que educaram a filha - sobre a opção dele de meter uma cunha para a nota no exame e, além dos rostos de ambos, vemos o retrato de Eliza também de frente, como se ali estivesse também (a ausente mais presente).
A opção estilística em alternar movimento desenfreado, um certo frenesim - com notas até de thriller e suspense bem encadeadas na narrativa, alimentando a possibilidade iminente de algo trágico estar sempre muito perto de acontecer - com o registo pausado das muitas e diferentes conversas, de Romeo com todos os outros, faz o filme ser mais abrangente, mais inclusivo até, como que querendo conciliar diferentes gostos e sensibilidades sem a necessidade de haver colisão.
Bacalaureat, Cristian Mungiu (2016)
Visionado em Filmin Portugal
'O Exame', Cristian Mungiu (2016)