DA VAGA REALIZADOR DO MÊS
Unrelated, de Joanna Hogg: um quase-amor de Verão
Já declarei em outras ocasiões que não sou capaz de resistir a um filme de Verão. E se incluir uma piscina é mergulho na certa. Por aqui, tenho vindo a escrever sobre vários filmes de Verão com piscina, a saber: 'A Piscina' (1969), de Jacques Deray; 'O Pântano'(2001), de Lucrecia Martel; Libertad (2021), de Clara Roquet; Aftersun(2022), de Charlotte Wells; ou Vacances (2024), de Victoria Hely Hutchinson - e, por entre todos os escritos publicados no NA VAGA DE ROHMER, é bem possível que esteja a escapar algum (ou alguns). No Verão vive-se, durante o ano sobrevive-se. Nas férias de Verão não se planeia, não se constrói, mas também raramente se destrói - é a perfeita antítese com o resto do tempo no calendário de cada ano que passa; estimula-se o sensorial, libertam-se os corpos, foge-se das preocupações, saboreia-se o ócio, permite-se o tédio, sai-se da norma, absorve-se o sol como mandamento divino e roça-se a utopia do savoir-vivre ou, como tão bem dizem os italianos, o dolce far niente. Talvez a minha adoração por filmes de Verão esteja também ligada à ideia de que no final - das férias de Verão e do próprio filme - tudo fica mais ou menos na mesma, como começou, sem reviravoltas, transfigurações, mudanças abruptas ou significativas operadas em 1 hora e meia ou 2 horas de filme. Cada vez mais gosto de filmes que acabam como começam, ou onde começaram - e assim é, assim vemos acontecer, em Unrelated (2007), a primeira longa-metragem da britânica Joanna Hogg (a escolha DA VAGA REALIZADOR(A) DO MÊS), autora da qual traremos filmes posteriores ao longo deste Fevereiro.
É com Anna (Kathryn Worth) - uma mulher algures nos 40, mais ou menos com a idade de Joanna Hogg à data do filme (hoje tem 65 anos), e, a julgar pela dedicatória to Nick (nome do marido de Hogg) no final, aparentemente o alter ego da realizadora - a chegar ao dolce far niente de uma casa de campo e férias algures na Toscana, sozinha, que se dá o plano de abertura do filme. E é com Anna, novamente a solo, na partida desse mesmo dolce far niente que cessa a história. Entre essa chegada e essa partida, o começo e o final do filme e das férias de Verão, vive-se, sente-se, extravasa-se, bebe-se e volta-se a beber, canta-se e dança-se, fala-se, mas não se conversa muito. Há coisas ditas que não ouvimos. Há coisas que os rostos querem dizer, mas que as bocas não dizem. Durante as coisas ditas que não ouvimos estão sempre as palavras que o marido ausente - no filme e nas férias - diz a Anna nas chamadas telefónicas matinais que se dão vezes sem conta ao longo do filme. Hogg coloca-nos invariavelmente a ver e a ouvir Anna nestes telefonemas em planos gerais do campo, da paisagem natural, onde ela faz caminhadas pela manhã, sempre perante um vasto horizonte, onde a câmara estaciona e deixa-se ficar e onde só se ouve a voz de Anna com o ruído de fundo das cigarras - deste modo, temos campo aberto para podermos construir a conversa entre os dois e consequentemente ir fabricando a relação de ambos, fragmento a fragmento, sempre com este espaço amplo para imaginação, reflexão, abstração constantes. Se estes diálogos, que para nós são monólogos, fossem mostrados e escutados em interiores, em espaços fechados, além da evidente claustrofobia, ficaríamos deveras limitados nesse exercício de construção permanente a que Hogg nos convoca e, também, teria certamente o condão de danificar a pureza e a atmosfera daquele dolce far niente. Assim, arrumados como separadores matinais, ao ar livre, entre cada dia que começa de novo naquelas férias de Verão, estes momentos de Anna ao telefone com o marido ausente sinalizam a vida que existia antes da chegada ao dolce far niente e que voltará a existir depois do dolce far niente.
E quanto às coisas que os rostos querem dizer, mas que as bocas não dizem, Anna é o expoente máximo - mas não só - desse agir. É nela e no seu rosto que a câmara se detém mais vezes e com mais vagar, ignorando ou esquecendo por vezes os convivas que chegam e que circulam à volta dela na casa - a amiga de longa data que a convidou, o marido desta, o amigo do casal, e ainda os quatro jovens, três rapazes e uma rapariga que compõem as duas famílias burguesas de uma classe média alta ali presentes -, olhando para o seu rosto, muitas vezes em grandes planos, vamos decifrando as suas inseguranças, receios, dificuldades, mas também as vontades, anseios e desejos. Oakley (Tom Hiddleston), o rapaz amigo dos filhos da amiga de Anna, vai fazendo desabrochar a sensualidade exótica de Anna e que o rosto dela expele pelas sardas espalhadas e pelos olhos cintilantes e aguados. Hogg também não se coíbe de fixar a câmara na seda que atravessa o corpo de Anna, desde a camisa de dormir até às pernas, isto sob uma luz de um amarelo quente, na cama, numa noite de Verão. Numa química crescente entre Anna e o rapaz, numa espécie de íman que une os corpos, que os senta sempre juntos, à mesa, no sofá, no chão de uma praça, a libido não cessa de aumentar, a cada olhar, a cada toque, a cada palavra, ganhando expressão verbal naquela que foi a conversa - propriamente dita - mais longa do filme, quando estão os dois sentados de frente para a câmara a discutirem o peso do sexo no casamento e a sobrevivência deste (casamento) sem o melhor do outro (sexo). O rapaz a lançar as cartas e Anna a ir recolhendo, medindo ou inibindo as palavras.
Como causa ou consequência, Oakley motiva a vivência fulgurante de Anna entre o grupo dos mais novos, que agora passam a ser cinco, com ela. Não há Verões como na juventude, e seja pelos problemas do casamento, seja pela necessidade de libertação, seja por uma certa inércia social - mais patente perante os adultos -, Anna entrega-se à folia desgarrada daqueles jovens ingleses, por entre copos, fumos, devaneios, vivendo a vida num só dia, cenas que dialogam bem com um filme italiano recente, Una Sterminata Domenica (2023) [‘Um Domingo Interminável’], de Alain Parroni. E para marcar e acentuar a euforia, Hogg recorre (sempre e apenas) à música diegética: no carro, de janelas abertas e cabelos ao vento a curtirem Set You Free - Set Me Free (N-Trance); e em casa com os corpos dançantes a darem tudo por One More Time (Daft Punk). E quando a libido se perde pelas palavras ditas - a imaginação não raras vezes se sobrepõe à realidade nestas coisas da testosterona -, é a música que ecoa do piano que apazigua a desenquadrada Anna: a caminho de uma festa para a qual toda a 'família' foi convidada dá-se um extraordinário plano, corroborando outros sublimes enquadramentos em que o posicionamento dos corpos dispensam as palavras, vemos, ao longo de uma estrada em terra batida, três grupos que caminham distanciados entre si - à frente os três adultos, a seguir os quatro jovens (os filhos) e, por fim, Anna, sozinha.
Li algures que Joanna Hogg é o segredo ou o tesouro, ou ambos, mais bem escondido do cinema britânico atual. Pois bem, Unrelated é uma verdadeira joia, rara e preciosa, feita de uma simplicidade complexa.
Unrelated (2007), de Joanna Hogg
Visionado em Mubi Portugal

Unrelated, de Joanna Hogg (2007)



