DA VAGA DE SALA
'Valor Sentimental', de Joachim Trier: Bergman (só) através de Interiors de Woody Allen
Quando há umas semanas escrevi sobre 'Começar de Novo' (2006), a primeira longa-metragem de Joachim Trier, apontei para a importância que o revisitar da obra inaugural do cineasta norueguês poderia ter numa eventual leitura de 'Valor Sentimental' (2025). O tema da identidade no indivíduo, iniciado em 'Começar de Novo' e desbravado depois com nuances em 'Oslo - 31 de Agosto' (2011) e em 'A Pior Pessoa do Mundo' (2021) - os outros dois filmes que completam a denominada 'Trilogia de Oslo' - continua como marca d'água do cinema de Trier. Acompanhando o avançar na idade adulta do próprio realizador - ele que já vai na sexta longa-metragem -, 'Valor Sentimental' já não é sobre o processo de busca, de construção e de reconstrução de identidade vivido por entre a fronteira do término da juventude e da entrada na vida adulta, com todos os sonhos, fascínios, encantos e desencantos, frustrações e devaneios, geradores de uma crise identitária e até existencial que fomos vendo ao longo da 'Trilogia de Oslo'. Digamos que agora o molde identitário está já definido, sedimentado até, com tudo o que isso implica. Ou seja, já não se trata de destruir ou desconstruir para recomeçar, mas antes de gerir, de lidar, de saber gerir e de saber lidar com toda a afetação que reveste a identidade; e, para que se possa compreender essa afetação, Trier decide explorar a herança identitária através da família. Se em 'Começar de Novo' observamos desde logo as derivações da psique humana por entre neuroses obsessivas e psicose, mutilações e tentativa de suicídio, em 'Valor Sentimental' esse universo continua presente - ainda que numa versão mais maturada e controlada. Li fugazmente por aí que este novo filme de Trier remete (muito) para o cinema de Ingmar Bergman; tenderei a concordar com uma condição sine qua non - a expressão de Bergman em 'Valor Sentimental' dá-se a partir da roupagem-versão-deriva bergmaniana levada a cabo por Woody Allen, particularmente em Interiors (1978).
O cinema de Trier não procura o dramático, foge ao confronto e à confrontação, o seu irrepreensível compromisso com a elegância e a sobriedade impede irremediavelmente a assunção da crueldade humana, feita de violência física, verbal e psicológica, que Bergman fazia escorrer com tamanha naturalidade nos seus filmes. Diria que à parte do cinismo e da arrogância pedante que vemos no pai (Stellan Skarsgad) das duas filhas, Nora (Renata Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), são mais os efeitos, ou os sintomas, do que as causas, que testemunhamos em 'Valor Sentimental' e que fazem pairar o universo bergmaniano; essencialmente a afetação na identidade das duas irmãs. E volto a Interiors, de Woody Allen, porque me parece ser como uma ponte para chegar a Bergman que Trier resgatou. Começa desde logo a partir da grande casa de família como testemunha e paisagem existencial, tendo honras de sequência inaugural em ambos os filmes. Em Interiors e em 'Valor Sentimental', antes de vermos rostos vemos as respetivas casas e as suas janelas, reverberando aqui o binómio interiorização e exteriorização, em diferentes dimensões: o que se vive(u) em família no interior da casa, com as suas fissuras, e os efeitos no mundo cá fora para as filhas, enquanto pequenas e, no presente, como adultas, Nora e Agnes em 'Valor Sentimental', Renata (Diane Keaton) e Joey (Mary Beth Hurth), em Interiors, e ainda Flyn (Kristin Griffith), com menos relevância; a angústia, a ansiedade, as obsessões, as neuroses, toda a afetação emocional que observamos nas irmãs, no filme de Trier e no filme de Woody, como herança identitária do interior de cada casa é depois exprimida de diferentes modos, como vimos em Interiors, mas também em 'O Valor Sentimental'. Nora exterioriza: sufoca em ataques de pânico antes de entrar em palco para mais uma peça teatral perante a grande plateia, e para voltar a si pede sexo ou violência; extravasa, riposta e explode perante o cinismo e arrogância do pai; não consegue adquirir equilíbrio emocional e tranquilidade no dia-a-dia. Já a irmã, Agnes, interioriza: funciona um tanto ou quanto em contraponto com Nora, constituiu família, é mãe, vive como pacata historiadora académica, vai anuindo perante o chorrilho de prepotências do pai, mas quando lhe vemos o rosto em grandes planos - vamos tendo alguns close-ups das irmãs ao longo do filme, na linha do que vemos também nas irmãs em Interiors, e não tão longos, profundos, intensos e invasivos como fazia Bergman com Liv Ullman, em especial, mas também com Ingrid Thulin ou com Bibi Anderson - lemos, nos seus vivos olhos, a tristeza e a impotência que carrega. E se os grandes planos de Nora servem para empolar as suas fragilidades - e que bem que o seu rosto alcança esse desiderato perante a câmara -, em Agnes, por sua vez, têm o condão de desvendar idênticas fragilidades, camufladas por sinal.
A personagem de Agnes, naquela obsessão que nutre pela irmã, ressoa um pouco o Erik (Espen Klouman Hoiner) de 'Começar de Novo' - Erik e o amigo Phillip (Anders Danielsen Lie) -, absoluta e genuinamente empenhada em cuidar, proteger, amparar, apoiar, motivar, apaziguar Nora. Num maravilhoso campo/contra-campo, em que as imãs conversam na cama segurando as respetivas cabeças, ambas com uma das mãos, ouvimos Agnes confidenciar a Nora o quão marcada ficou pelos cuidados que a irmã (mais velha, Nora) teve com ela enquanto crianças na casa dos pais e, deduzimos, a obsessão pela irmã terá surgido desde então, em tenra idade, um pouco como Erik em relação a Phillip, enquanto crianças na escola. Este diálogo de consolo mútuo das irmãs foi um dos dois momentos mais intensos do filme; o outro é aquele ataque e contra-ataque entre o pai e Nora, numa reunião de família, com a intervenção de Agnes como freio, uma sequência que incorpora um notável enquadramento a partir da nuca do pai: com as duas filhas de frente desenha-se um triângulo geometricamente definido que acaba por ilustrar a ideia forte de herança identitária.
Essa fuga assumida ao confronto e ao escarafunchar de feridas pelo cinema de Trier - uma vez mais, como Woody fez de certo modo em Interiors - retira-lhe profundidade, inegavelmente. A própria ideia de partir da casa (secular) de família, impregnada de espíritos dos antepassados que ali foram vivendo e morrendo - inclusive, Trier faz dela (da casa) o eixo sobre o qual se desenvolve o filme e até o filme dentro do filme que o pai, realizador, está a fazer - era alavanca por si só para mais cenas do pai com Nora (já que o pai e Agnes não escarafuncham feridas) ou do pai com as duas filhas em simultâneo, talvez até num registo mais psicanalítico. Trier preferiu, sem surpresa, abrir o filme, retirar-nos de uma eventual claustrofobia dentro da grande casa e, simultaneamente, encontrar espaço para a crítica a duas crises: a do cinema e a da sociedade em geral, atacadas pelos monstros do tecno-feudalismo e pela extrema-direita, concreta e respetivamente, a Netflix e o nazismo-fascismo. É difícil censurar Trier, tendo em conta a nobreza e a premência destas duas problemáticas, mas, definitivamente, 'Valor Sentimental' não ficou maior por essa dupla abordagem, e diria até que, ao desviar-nos de forma tão induzida para tais reflexões, teve o efeito de enfraquecer o filme, de pôr a nu as suas lacunas.
Sentimental Value, de Joachim Trier (2025)
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'Valor Sentimental', de Joachim Trier (2025)



