DA VAGA DA SEMANA
'A Amiga Silenciosa', de Ildikó Enyedi: ramificações das memórias de uma árvore
Uns passaram pelas brasas, outros deixaram-se dormir quase o tempo todo, fui ouvindo de um pequeno grupo de espectadores que conferenciava à saída da sala do Cinema Nimas, já passava da meia-noite, após o término da sessão de 'A Amiga Silenciosa' (2025), de Ildikó Enyedi. O cinema desta septuagenária húngara é deveras intrigante, como fizera prova o filme com que ganhou o Urso de Ouro em Berlim'17, 'Corpo e Alma' - bom, mas intrigante. Talvez a melhor altura do dia para ver 'A Amiga Silenciosa' seja pouco depois de acordarmos, em tese, mais frescos para captarmos, absorvermos e processarmos os diferentes estímulos sensoriais que nos entram pelos olhos e pelos ouvidos; em suma, diria que mais próximos do bebé de 6 meses do que do homem de 60 anos daquele comparativo de atividade cerebral, perante as mesmas imagens, que vemos um neurocientista mostrar aos alunos numa sala de aula, na fase inicial do filme, enfatizando a eliminação e o afunilamento da informação por parte do cérebro do adulto, em contraste com a abertura e a amplitude observada no cérebro do bebé. Se nos lembrarmos de 'Corpo e Alma', durante um largo tempo de filme seguimos alienados e intrigados por meio da história que se vai desenrolando num matadouro (de vacas) onde as personagens trabalham e a alternância com imagens de veados que vemos em plena floresta. É quase como um estágio mental para depois absorvermos o toque onírico-mágico que Ildikó Enyedi lança sobre a narrativa, desabrochando uma conexão (sobre)natural entre aquele homem e aquela mulher, como os dois veados, macho e fêmea. Acima de tudo, nada se oferece, nada é dado como adquirido no cinema de Enyedi. O facto de sabermos de antemão, nem que seja pela sinopse ou pelo trailer, que uma grande árvore (ginkgo biloba [nogueira-do-japão]) é testemunha de três histórias dispersas no tempo, sempre naquele jardim botânico de uma Universidade alemã, está longe de nos fazer imaginar a quantidade de ramificações que são espraiadas, cabendo a cada um de nós a escolha sobre quais nos debruçarmos, tentando ou não ligar pontas, eventualmente soltas.
Até do ponto de vista espacial a ideia de que tudo se pudesse passar à volta daquela grande árvore, na sua sombra e no seu regaço, é enganadora. Não raras vezes a câmara de Enyedi imiscui-se árvore acima, a caminho do seu topo, e dali amplia o seu raio de visão e conexão com os protagonistas, com as três histórias separadas no tempo - dos inícios do século XX até aos dias da Covid-19. Histórias distanciadas temporalmente, mas entrelaçadas pelos troncos, galhos e folhas da árvore, observadora e testemunha privilegiada, que as faz mesclar no filme, como um corpo de memórias tão orgânico quanto possível, forrado a preto-e-branco, num classicismo da história mais antiga, forrado a cores de textura granulada, numa contracultura juvenil daquela história dos anos 70, e forrado a nitidez digital, na história de um presente pandémico feito de vazio.
Volto a 'Corpo e Alma' para nos recordarmos do processo de desentorpecimento que a protagonista (com evidentes traços de autismo ou de TOC [transtorno obsessivo-compulsivo], o filme não se debruça sobre, nem denomina a patologia) vai encetando a certa altura para conseguir desabrochar as emoções e passar à relação física e carnal com o seu enamorado, tal como os veados, algo de efetivamente novo para ela; recorre à música, ao ato mundano de se deitar num jardim sendo depois bafejada pelo prazer proporcionado pela chuveirada do sistema de rega, até ao toque e aconchego de um peluche peludo e fofo no seu peito. Desabrochamento, manifestação e controlo de emoções, nos humanos e na natureza, em conexão muitas vezes, estendendo os fios de monitorização de atividade cerebral usados pela medicina à botânica, ampliando ramificações, é por aqui que vamos submergindo nas histórias (quase) contadas por aquele ginkgo biloba, que afinal é do género feminino, assim confirmam as investigações do neurocientista (Tony Leung Chiu-wai) vindo de Hong-Kong que entretanto fica confinado naquele campus universitário, cuja única companhia humana é o zelador/vigilante do espaço. Talvez esse dado biológico nos ajude a compreender a história-memória mais antiga da árvore, e do filme, onde uma jovem mulher (Luna Wedler) se desunha perante um júri machista e patriarcal composto por quatro homens para se tornar na primeira estudante de Botânica daquela Universidade. Nesse desunhar da rapariga vem ao de cima um tremendo controlo de emoções, que a fizeram segurar-se perante a jocosidade e a deselegância - para não dizer pior, obviamente - das observações e comportamentos daqueles homens. Se estivermos atentos, no momento em que sai daquela audiência - chamemos-lhe assim - e ruma ao seio do jardim botânico, debaixo de mira da grande árvore, vemos em planos aproximados, com a câmara a deslizar, a textura das árvores e das plantas à flor da pele, como que expelindo as emoções tão contidas por ela lá dentro - é o toque mágico de conexão natural que Enyedi injeta.
Continuemos nas emoções. Na história intermédia no tempo, da rapariga (Marlene Burow) e do rapaz (Enzo Brumm) recém-conhecidos que partilham casa no jardim botânico, aprofundando a relação com a natureza, monitorizando emoções de um gerânio (uma planta) através de um polígrafo, Enyedi mostra-nos com tamanha sensualidade, outra vez à flor da pele, mas agora de pele humana, que bastaria querer e faria só com aqueles dois no jardim um tremendo filme, em torno daquele jogo natural de desabrochar e consequente (ou não) manifestar das emoções, tendo o gerânio como conector. Num outro plano relacional, na história do filme mais recente na linha do tempo, a natureza, com o jardim botânico e a grande árvore, funciona como um catalisador de emoções contrastantes, do ciúme e desconfiança, primeiro, que leva o zelador do campus cortar os fios que o neurocientista ligou em volta da grande árvore para monotorizar a sua atividade emocional, até à aproximação e ao afeto, depois, que, apesar do confinamento pandémico, une os dois homens em volta da árvore, a pincelarem as folhas com 'espermatozoides' e a aguardarem, juntos, o tempo da natureza.
Um tempo que se manifestará depois no derradeiro plano, num demorado zoom out em que a câmara vai enquadrando a preceito o, ou a, ginkgo biloba com folhas de tons amarelos, quentes.
Silent Friend (2025), de Ildikó Enyedi
Visionado no Cinema Nimas
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'A Amiga Silenciosa' (2025), de Ildikó Enyedi



