DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Leffest
Old Joy, de Kelly Reichardt: fuga ao establishment social
Nem de propósito. Terça-feira, dia de eleições intercalares [as midterms] nos Estados Unidos da América (EUA): para escolher os 435 congressistas da Câmara dos Representantes, cujos mandatos são de dois anos, e ainda 35 dos 100 membros do Senado (os mandatos dos senadores são de 6 anos). Cadeiras para dividir em ambas as câmaras por apenas dois partidos: Republicanos e Democratas. Nenhum outro partido possui um congressista ou senador. Eis o bipartidarismo sistémico, arrumado em dois grandes blocos, que seca e anula a representatividade de correntes alternativas. Para impedir a fragmentação política, estes dois grandes partidos vão arrumando intramuros diferentes fações e tendências que vão coabitando ao sabor da realpolitik. E quem não se enquadra ou não se revê neste sistema dual pode até votar em outros partidos - que os há -, mas infrutiferamente a sua escolha não terá representação parlamentar. Sobra pois o vazio, fora deste establishment que molda a sociedade norte-americana. A dupla de River of Grass (1994), nos anos 90, a protagonista de Wendy and Lucy (2008), já neste século, ou ainda, os ativistas climáticos de Night Moves (2013), com Jesse Eisenberg à cabeça, e até a tratadora de cavalos no Inverno (Lily Gladstone), em Certain Women (2019), todos em filmes de Kelly Reichardt - terá Homenagem e Retrospectiva no próximo Leffest -, todos parecem existir e resistir fora do paradigma criado por esse grande sistema bicéfalo. Em Old Joy (2006), segunda longa-metragem de Kelly Reichardt, ouvimos ecoar pelo rádio do carro um debate em torno dos Republicanos e dos Democratas, um eco que dá textura sonora à paisagem urbana em movimento, embalando-nos num torpor profundo.
Ora expelido ora sugado, da e pela urbe, vemos o carro de Mark (Daniel London) a sair e a regressar, com o programa de política que se faz escutar pela rádio e que funciona no filme como uma espécie de sinalizador fronteiriço da vida urbana de um cidadão dos EUA, no caso, no estado de Óregon. Só quando Mark parte com o amigo Kurt (Will Oldham) rumo às montanhas, para acamparem uma noite e passarem um pedaço de tempo juntos, as vozes dos analistas políticos cessam, respeitando a mudança da paisagem, da urbana para a a industrial, da industrial para a natural, sempre em andamento, num dos tão imprescindíveis carros que o cinema de Reichardt utiliza para o tão necessário deslocamento no espaço dos protagonistas - agora é a música (introduzida) dos Yo La Tengo que nos cura a alma. De grosso modo, a narrativa de Old Joy poderia cinicamente ser descrita numa única frase: Mark recebe uma chamada do amigo Kurt para irem passear até às montanhas, acampando uma noite, aproveitam para tomar banhos relaxantes em águas termais, e regressam no final do dia à cidade, e às respetivas casas. No fundo, um filme feito de não-acontecimentos, pelo menos a olho nu. Reichardt nunca investe por aí além - às vezes quase nada ou até nada - no contexto das personagens, num molde apriorístico, preferindo atribuir ao espectador, se a isso estivermos dispostos, essa missiva. A construção das personagens será sempre gradual e em relação intrínseca com a paisagem por onde se movem, e aí a cineasta norte-americana não economiza, oferece-nos sempre muito espaço visual: letreiros, néones, placas, marcas, menus, nas ruas, praças, estradas, áreas de serviço, cafés, lojas de conveniência; casas; elementos naturais, para nos mostrar aquilo que há em redor, potenciando esse nosso fabricar da personagem-paisagem, quase sempre em movimento: em transição, em vagueio, em fuga, em mudança, em escape, em busca, em modus road movie - a paisagem em mutação e a personagem a (des)encaixar-se.
Se o espaço é determinante no cinema Reichardt, o tempo é um aliado perfeito. Em Old Joy, o tempo em que vemos a paisagem a entrar pelas janelas do carro dos dois amigos será de uma dimensão quantitativa semelhante, talvez até maior, àquele em que a câmara se detém nos rostos de ambos enquanto conversam naquela viagem rumo à floresta. Os tempos intersticiais a que a câmara de Reichardt dá vida, como aquele em que param numa área de serviço para abastecer e ficamos a observar a zona e as pessoas em volta, além de Kurt e a cadela Lucy (a mesma que dois anos depois entra em Wendy and Lucy) a desentorpecerem os membros, também sob o olhar vago de Mark, são absolutamente essenciais para que espaço e protagonistas se expressem, em correlação. E ao vermos os dois amigos e a cadela Lucy naquela área de serviço, facilmente juntaríamos ali Wendy (de Wendy and Lucy) e os quatro poderiam rumar à natureza, em busca de um estado mais primário, primitivo, visando uma existência básica e pacífica.
É já com os corpos mergulhados nas banheiras de madeira, em águas termais, de uma cabana instalada no meio da floresta longe da estrada, o suficiente para ser difícil de encontrá-la, que Mark, num momento de relaxamento absoluto, exala uma genuína e simples felicidade, quebrando pela primeira vez e prolongadamente o ar sisudo, vago, perdido, inerte, que o seu rosto apresentara até então. Enquanto Kurt conta uma das suas peripécias nas ruas, trazendo à tona o seu modo de vida desgarrado, desenquadrado e marginal, de alguém que estacionou lá atrás no tempo, na idade, Mark, com aquele rosto de prazer singelo, parece embarcar numa viagem, na fuga, ainda que momentânea, à redoma que o capturou, feita de casa, mulher, filho para nascer, trabalho com horários, Democratas e/ou Republicanos. E nesta sequência de corpos mergulhados nas águas termais ainda há lugar para o frisson que
Reichardt gosta de criar, colocando-nos a imaginar o mal, um ato de insanidade - na sequência final com os dois amigos em
'First Cow'
(2019) também sentimos esse frisson de contornos muito similares - em que Kurt pudesse agredir, asfixiar, matar o amigo, completamente à sua mercê, ali estirado na banheira. Magistralmente esse momento de ameaça imaginária transforma-se num gesto terno que derruba barreiras tão presentes nas relações de amizade masculinas.
As imagens derradeiras de ambos no filme, já separados, consubstanciam na totalidade os estados em que ambos se encontram: Mark do lado de fora de casa, como no início, reflexo da hesitação perante a captura do establishment sociedade-casa-família; Kurt a vaguear sem óbvia direção, ziguezagueando pela paisagem urbana noturna.
Old Joy (2006), de Kelly Reichardt
Visionado na Mubi
Sessão no Leffest, sábado, 7 de Novembro, às 18h30, no Cinema Nimas
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Old Joy (2006), de Kelly Reichardt



