DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Doclisboa

piresstephane • 13 de outubro de 2026

Vent du matin, de Cláudia Ribeiro: sob o ritmo cíclico da natureza


Somos cada vez mais uma sociedade feita de consumidores finais. Como um eletrodoméstico, um aparelho tecnológico ou um carro, os alimentos tornaram-se produtos finais, para uma grandíssima maioria de pessoas. À absoluta ausência no processo de criação e produção dos bens alimentares soma-se um vasto alheamento no que concerne ao saber da origem das coisas e às etapas até ao consumo final. Somos (também) aquilo que comemos - parece que nos esquecemos disto. Na sua primeira longa-metragem, 'Entre Leiras' (2020), Cláudia Ribeiro assentara arraiais numa pequena aldeia perdida entre o Douro e o Tâmega, no concelho de Marco de Canaveses, para, na companhia de duas mulheres irmãs lavradoras, debruçar-se sobre a origem das coisas e o seu processo, a partir da terra: o semear para colher para depois dar a comer e comer. Cereais, batata, horta, vinha, árvores de fruto e os animais, tudo, ou praticamente tudo, criado, produzido, tratado e colhido a quatro mãos, mãos assentes em sabedoria ancestral, transitada de geração em geração, em trabalho árduo, em relação umbilical com a terra - de cultivo -, e em respeito integral pela natureza. E é imbuídos nesse respeito pela natureza, pelos seus ciclos e ritmos, que transitamos para Vent du matin (2026) [Vento da manhã] - a segunda longa-metragem da realizadora vimaranense, que estará em estreia no próximo Doclisboa, mais concretamente na Competição Portuguesa.


Da pequena agricultura de subsistência das irmãs de 'Entre Leiras' viajamos até uma quinta de produção vinícola algures em França, em Vent du matin, um upgrade evidente nos meios de produção, mas onde as mãos, a pujança braçal, em suma, o trabalho humano, continua a ser a força motriz. A própria Cláudia Ribeiro chegou a fazer parte dessa força motriz nesta quinta gaulesa, quando junto com outros jovens trabalhadores agrícolas sazonais - como aqueles que vemos no filme - integrou uma campanha das vindimas, surgindo depois, como o fruto de um longo processo, o Vent du matin. Como que a acompanhar esse transfer da pequena lavoura de subsistência, em 'Entre Leiras', para uma produção agrícola de maior dimensão, em Vent du matin, também a câmara de Cláudia Ribeiro se transforma, de certo modo em consonância. De câmara-corpo, participativa, omnipresente, que naturalmente influencia e condiciona a vida das duas irmãs, em 'Entre Leiras', assume agora em Vent du Matin um estado mais observacional, privilegiando muitas vezes a distância na captação de fragmentos da realidade - intensificando essa pureza do réel -, alargando a amplitude espacial, libertando-se da tentação excessiva dos corpos-ímanes-amarras que víramos no filme anterior.


A premissa de respeito pela natureza, e seus ciclos e ritmos, está bem consubstanciada no plano inaugural de Vent du Matin, onde somos colocados à distância, no escuro e no silêncio da madrugada, à espera que da parca luz no interior da casa (na quinta) possa sair algo, aguardamos, entretanto liga-se uma luz no exterior, uma espécie de pequeno farol que antecede a aurora; mudamos de plano, para um plano geral sobre a quinta e eis que começa a amanhecer, vem aí mais um dia, um novo dia - é como se tivéssemos de esperar pelo início do dia de trabalho na quinta, da luz natural, para podermos começar o filme, filme esse que atravessa as quatro estações, a lembrar aqui um pouco 'As Estações' (2025), de Maureen Fazendeiro. Mas onde essa ideia de respeito pela natureza no seu todo se torna mais evidente neste filme de Cláudia Ribeiro é nos vários contrastes harmoniosos que vai gerando entre planos que alternam ruído do trabalhar com quietude e silêncio natural, aqui sempre com animais embutidos: o cavalo num grande plano com a neve como décor, após o ruído do compressor que alimenta o jato de água para limpar o material; a ave que voa alto sem nunca sair do horizonte num céu de azul pleno, após o ruído da rega pela mangueira; ou o caracol que demora mais de um minuto a sair fora-de-campo num plano estático, após o ruído do (pré-) vinho que jorra no lagar, após o esmagamento das uvas. São momentos de quebra, que nos fazem tomar consciência do estado base da natureza, que, quando o movimento laboral abranda ou cessa, repousa e sossega na calmaria, entre a fauna e a flora.


Em cima desta realidade e deste naturalismo expressos com tamanha nitidez, exaltando cores e luminosidades das diferentes estações nos prados e vinhedos, vemos a certa altura emanar no filme uma dimensão poética e também uma dimensão metafísica, ambas alicerçadas no som, agora não na forma de ruídos mas sim de música. Já em plena época de vindima, com o maralhal todo de jovens dedicados à labuta do campo, num momento pós ou pré-refeição, uma harmónica cola-se à boca de um rapaz que larga uma melodia envolvente que depois o vento parece fazer ecoar pela quinta, sonorizando aquele ócio bom, solarengo, por entre aspirações verbalizadas por uns, desenhadas por outros, imaginadas por aqueloutros. Um pouco mais à frente, a caminho do final, numa sequência que culmina no já referido plano do futuro vinho a jorrar, que antecede o percurso do caracol, acompanhando o trabalho braçal dos rapazes no lagar a empurrarem as uvas para serem trituradas, ouvimos o ruído maquinal da trituradora transformar-se num eco transcendental, da ordem do divino, fazendo daqueles rapazes deuses, Bacos; eco que se prolonga até o líquido começar a jorrar pelas paredes de cimento e desaguar no tal plano de enxurrada cor-de-vinho, aí já sob o som da chuva (de vinho).


Ao sabor da natureza, rodadas as quatro estações, fecha-se o ciclo do filme, tempo de seguir estrada fora.


Vent du matin (2026), de Cláudia Ribeiro

Visionado no screener cedido pela Terratreme e Rua Escura Filmes



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Vent du matin (2026), de Cláudia Ribeiro

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