DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Doclisboa

piresstephane • 17 de outubro de 2026

Gallega invernal, de Lucía Seles: na cafetaria-ilha


Não há como negá-lo: Lucía Seles é uma das cineastas mais queridas pelo NA VAGA DE ROHMER. O afeto não vem de longe -começou apenas em Outubro de 2024 com  Fire Supply - mas é revestido de uma intensidade que suplanta o tempo e a sua duração. No espaço de dois anos aqui estamos a iniciar o quarto escrito sobre filmes desta cineasta argentina, aos quais se junta uma conversa com a própria num episódio do Postal-Filme, o nosso podcast semanal, aquando da exibição de The Bewilderment of Chile no último IndieLisboa, em Maio deste ano. No âmbito do Doclisboa que está a decorrer, convidei Lucía Seles para conversarmos novamente no Postal-Filme, em torno de Gallega Invernal (2026) [Wintry galician woman] - com duas sessões no Doclisboa -, mas, por manifesta impossibilidade sua, desta feita não será possível.

"muchas gracias siempre a ti stéphane

recuerdo la precision y cuidado

q tuviste con el momento de la ventana de la confiteria ritz como ejemplo de toda el video

the bewilderment of chile

abrazo inmensicima" [Lucía Seles em resposta final nos emails que trocámos].

Ao quarto filme que vemos de Lucía Seles o seu cinema já não nos nos surpreende ou espanta. Conhecidas que são todas as suas obsessões maiores, bem como a sua linguagem, tão inaudita como ilusoriamente complexa, amadurecemos enquanto espectadores do seu cinema, pelo que agora degustámo-lo, acima de tudo. Se em Fire Supply e em The Bewilderment of Chile, registos mais ficcionais,  fomos vendo as idiossincrasias da própria cineasta, ancoradas na sua grafomania - necessidade patológica de escrever, de rabiscar, ou de fazer registos gráficos daquilo que vai observando -, a serem vertidas e distribuídas, mais ou menos, com maior ou menor intensidade, em todas as diferentes personagens, e, por sua vez, em 1073 Saenz Avenue, observamos a própria Lucía a corporizar fisicamente todo esse manancial, eis que neste mais recente Gallega Invernal testemunhamos a omnipresença de Lucía: com o seu corpo como câmara e a câmara como os olhos, com as suas anotações (escritas) permanentes como boca palavrosa, com a sua montagem como cérebro - solamente só.


Sozinha, na Galiza, na Corunha, na Manhattan (cafetaria daquela cidade galega onde Lucía atracou). Com nome de ilha, que faz jus à sua implantação no centro da Plaza de Pontevedra, circular, como uma rotunda, como um epicentro, como um espaço mais do que perfeito para o desaguar e o consequente observar da mise-en-scène da realidade que Lucía tanto venera. Como a própria nos disse em Maio no Postal-Filme, as cafetarias são como oficinas para ela, locais de trabalho, de criação. Envidraçada em 360º, facilitando e promovendo a diluição interior/exterior, esvaziando delimitações, e conferindo amplitude que a transforma numa cidade dentro da cidade, Corunha, numa região dentro região, Galiza, Lucía parece ter encontrado ali, na cafetaria Manhattan, o seu  zénite. Juntemos-lhe o mármore abundante que reveste a cafetaria - lembremo-nos que em The Bewilderment of Chile há um momento em que Lucía deseja que um pedaço de mármore como aquele possa revestir o espaço fúnebre na sua morte -, o couro clássico, castanho, que forra os assentos - aqui recordamo-nos da mãe do protagonista central em Fire Supply  (talvez o maior alter-ego nesse filme) quando descreve de modo embevecido o conforto dos assentos na cafetaria do terminal de autocarros (outra enorme obsessão) -, os espelhos, os tetos trabalhados e iluminados, enfim, todo um classicismo feito de requinte, mas popular, não elitista, onde melhor se embute uma geração urbana mais velha ou a caminhar para, que sabe pausar, para conversar, confraternizar, comer, bebericar, ou simplesmente estar, muitas vezes só, quebrando essa solidão naquele ambiente de ponto de encontro, para outros no agora, para o(s) próprio(s) outrora.


O céu nublado, num Inverno que já canta Navidades galegas, que traz o frio e o aconchego que Lucía tanto aprecia, completa o ramalhete; em contraste com o calor, que abomina, um dos ódios de estimação, a par dos franceses, algo bem patente em The Bewilderment of Chile, e que aqui volta a tocar en passant nas suas anotações permanentes no ecrã, anotações essas que nos filmes anteriores eram apenas uma espécie de post-its de onde em onde. E é a falar (no caso é escrever, pois nunca a ouvimos falar em todo o filme) dos franceses que Lucía vai parar a Chantal Akerman - já não sei como - afirmando a sua admiração por ela, mas realçando que a mesma é belga e não francesa. E ao ver o nome de Akerman escrito nas anotações que banham o filme, é impossível não refletir sobre o transfer de todos aqueles rostos anónimos de pessoas reais que circulam na vida, em Gallega Invernal (especialmente no interior da Manhattan) para o ecrã, como tantos e tantos outros nos filmes de Akerman (talvez News from Home [1976] seja aquele que mais e melhor comunique com Gallega Invernal), e neste conceito que ambos partilham de olhar para as pessoas nos espaços públicos como também elas entidades e/ou símbolos públicos no quotidiano, alvos automáticos das lentes das suas câmaras - seja da câmara mais impositiva de Akerman, seja da câmara mais invisível de Seles. Depois surge a destrinça fatal ente elas: Akerman prolonga o espaço-tempo em planos fixos e necessariamente a imagem em questão faz-nos ficar com ela, ou impomo-nos sobre ela ou ela impõem-se sobre nós, nem que seja, em última análise, pelo tédio; já Seles sente uma necessidade constante de quebrar a rigidez do plano (estático) e, particularmente neste filme -  a grande maioria dos planos é feita de câmara fixa, a partir de cada uma de todas as mesas da cafetaria Manhattan em que ela fez questão de se sentar/filmar -, faz uso das anotações escritas para dinamizar, e até dinamitar, a imagem, guiando-nos o olhar, distraindo-nos, (des)orientando-nos, sempre sob o seu comando.


Já não conseguiríamos sobreviver sem pelo menos um novo filme de Lucía Seles por ano. E ela também não.


Gallega invernal (2026), de Lucía Seles

Visionado no Doclisboa, Culturgest



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Gallega invernal (2026), de Lucía Seles

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