DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Festa do Cinema Francês

piresstephane • 6 de outubro de 2026

'Adeus Mundo Cruel', de Félix de Givry: morrer para depois viver


Atá à noite desta segunda-feira o nome de Félix de Givry remetia-me apenas e só para o Paul de 'Éden' (2014), o filme de Mia Hansen-Love em que o então ator  (Félix de Givry) interpreta um rapaz que se torna DJ, contemporâneo dos Daft Punk, e que deixa de o ser ao longo de uma linha do tempo que percorre mais de duas décadas, desde os anos 90 - personagem inspirada no irmão da própria realizadora. 'Éden' é um filme geracional, de culto, que não se esquece, e há um plano - um dos meus grandes planos da História do cinema - que imortaliza o filme; o melhor é mesmo citar o excerto a propósito do plano, sonorizado por Within dos Daft Punk, no texto que escrevi sobre 'Éden': «Mais tarde, já em 2013, quase no final, Mia reserva-nos o momento mais impactante do filme, condensando num só plano toda a sua arte de bem filmar, toda a sua delicadeza, toda a nostalgia e toda a melancolia de Paul: num regresso sóbrio à noite, a um bar, seleto, calmo, onde acaba por rever amigos, Paul isola-se e fixa, como sempre, o olhar na pessoa que põe a música, desta feita, uma rapariga que faz uso apenas de um Mac (Apple); a câmara parte do rosto de Paul para uma demorada panorâmica, numa quase ausência de profundidade de campo, com a iluminação difusa no escuro, até chegar e estacionar na rapariga e no Mac». Esta segunda-feira, na Festa do Cinema Francês, vi um certo passar de testemunho da melancolia de 'Éden' para 'Adeus Mundo Cruel' (2026), primeira longa metragem de Félix de Givry, e do próprio Paul para Otto (Milo Machado-Graner, que já conhecíamos de Anatomia de uma Queda [2023], de Justine Triet). Mas diria mais ainda, há um traço de sensibilidade, delicadeza e ternura neste filme-estreia de Félix de Givry que reforça essa conexão com o cinema de Hansen-Love, com extensão óbvia para 'Um Amor de Juventude' (2011). Depois, há todo um aproximar simbólico, conceptual e quase de homenagem, ou de reconhecimento, à Nouvelle Vague, com ingredientes que fazem o filme parecer situar-se algures atrás no tempo, mas sem sair de um presente, sem nunca ser um filme de época. A filmagem a 16 mm empresta o grão analógico à imagem; as largas panorâmicas noturnas e os travellings de correria dos miúdos - além de Otto, Léna (Jane Beever) - trazem Truffaut à liça, em especial a sua também primeira longa-metragem, 'Quatrocentos golpes' (1959); a utilização de uma voz-off narradora, no caso, Françoise Leburn (reconhecida para sempre como Veronika em La Maman et la Putain [1973], de Jean Eustache), a lembrar muito a voz de Agnès Varda a relatar os passos perdidos de Mona em Sans toi ni loi (1985), tal como os de Otto, para onde nos remetemos também pela atmosfera sombria, taciturna, na paisagem natural que envolve e abarca as habitações e onde as ruas e estradas se estendem despidas de gente.


É o grito interior de quem sofre que espoleta o filme e a história. Da violência que os outros (colegas de escola) infringem no adolescente Otto chegam-nos apenas passos, sombras e impropérios de ameaça no escuro, nos momentos iniciais. Os agressores não têm rosto, nem espaço físico no filme. A dor foi causada, quem quiser que a projete como - sendo o bullying tao premente e intemporal, não será difícil imaginar de diferentes formas. Para Otto o tempo é de morrer, deixando o testamento de culpas aos que ficam. Morrer para depois viver, morrer para renascer, terá pensado Félix de Givry,  e talvez inspirado por Dostoiévski ou por Robert Bresson, ou por ambos, coloca o rosto singelo de Léna, como luz no horizonte de Otto, à sua frente, do outro lado da rede, da vedação que o aprisiona, não na cadeia, mas na escura vida que lhe parece restar - como Sónia diante de Raskónikóv (Crime e o Castigo, o livro), como Jeanne diante de Michel ('O Carteirista' [1959]). E diga-se que os dois protagonistas, adolescentes, corporizam rigidez e impassividade bressonianas, conferindo aura e gravitas ao momento em que se cruzam pela primeira vez e, progressivamente, ao desenrolar da relação de ambos, quase como dois ponteiros de um relógio clássico que giram em torno do mesmo mecânicamente, rotineiramente, naquele quarto-novo-mundo-só-dos-dois, no hotel da mãe de Léna; o ritmo é pausado, o filme não procura fugir para lado algum, nem lhe interessa perturbar em demasia aquele status quo do esconderijo.


Talvez sintamos hesitação e indefinição quanto ao renascimento de Otto no mundo real, fora das paredes daquele quarto. O existir fantasmagórico nas ruas é-nos omitido pelas imagens e relegado para as narrações de Françoise Lebrun; de certa forma, é como se ao sair do quarto Otto tivesse morrido outra vez e aquela incorporação na vigília de balões brancos seja apenas uma aparição metafísica. Talvez a morte (física) ali faça mais sentido do que a vida.


Adieu monde cruel (2026), de Félix de Givry

Visionado na Festa do Cinema Francês, Cinema São Jorge



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'Adeus Mundo Cruel' (2026), de Félix de Givry

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