DA VAGA REALIZADOR DO MÊS

Stéphane Pires • 19 de março de 2024

'Compartimento nº6', de Juho Kuosmanen: quem vê caras não vê corações


Se em 'O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Maki' (2016), Juho Kuosmanen inspira-se na vida real do pugilista finlandês (Olli Maki) para ficcionar uma história, por sua vez, em 'Compartimento nº6' (2021), o realizador compatriota de Aki Kaurismaki parte de uma narrativa ficcional, cujo livro dá nome ao filme, de uma autora também finlandesa (Rosa Liksom), para criar e mostrar a sua própria história. "Não segui o livro, pois gosto de ser livre. O livro é dela, o filme é meu", diz Kuosmanen numa entrevista. Em ambos os filmes, os protagonistas apanham o comboio rumo ao(s) seu(s) destino(s) programado(s) e almejado(s), na procura, de certo modo, do concretizar de um objetivo, ou, talvez melhor, do cumprir de uma missão de vida e para a vida, mas é precisamente nesse longo caminho de busca que, quer um quer outro, encontram a verdadeira felicidade, descoberta no meio da pureza e da simplicidade, em contraponto com artificialismos e aparências. É, pois, a viagem que determina o rumo existencial para lá do destino físico-planeado; é a 'Voyage, Voyage' (Desireless, 1986), hit francês icónico na transição da década de 80 para aos anos 90, que entoa no filme e também nos auscultadores ligados ao leitor de cassetes de Laura (Seidi Haarla). E é já o terceiro filme abordado em NA VAGA DE ROHMER com os ecos de 'Voyage, Voyage', depois de 'A Rapariga e a Aranha' (2021), de Ramon & Silvan Zürcher, e de 'BAAN' (2023), de Leonor Teles (2023) - nos três filmes assistimos às viagens interiores, de autodescoberta, de mudança, de procura, sempre no feminino.


É em busca dos petróglifos (gravuras rupestres) que Laura, uma jovem finlandesa, estudante de Arqueologia na Rússia, decide apanhar o comboio de Moscovo até Murmansk (a norte da Rússia, a norte do Círculo Polar Ártico, próxima da fronteira com a Finlândia): uma viagem que nos dias de hoje leva entre 36 a 37 horas de comboio, certamente um pouco mais longa à época não muito definida em que decorre o filme - para Kuosmanen isso não é relevante -, algures entre finais dos anos 80 e fim da década de 90. Parte sozinha numa viagem que inicialmente seria para fazer na companhia da namorada Irina (Dianara Droukarova), professora de literatura em Moscovo, com quem partilha casa. E já dentro do comboio, Kuosmanen não deixa de nos dar o travelling para trás que, mais do que assinalar a partida, reforça o começar do deixar (para trás) da vida forçosamente, e até forçadamente para Laura, festiva, movimentada, social e intelectualmente pedante, em casa de Irina, que presenciamos nas cenas inaugurais.


Não deixa de ser curiosa a resposta de Laura à questão de Lyokha (Yuriy Borisov) - com quem, também forçosa e forçadamente, partilha o compartimento no comboio -, atónito, sobre o motivo que a leva a fazer tamanha viagem para ver os petróglifos, que ele desconhecia. Laura responde parafraseando um dos amigos intelectuais de Irina: "É mais fácil compreendermos o presente se conhecermos o passado". Resposta amplamente reveladora da incerteza e da indefinição que vive, entalada entre uma experiência (de vida) romântica-cosmopolita, indelevelmente marcada por aparências e artificialismos, em Moscovo, e um confronto genuíno - entre o compartimento partilhado e os corredores estreitos do comboio - com um homem simples, de vida simples, terreno, que faz a mesma longa viagem frequentemente para trabalhar numa mina e assim ganhar o dinheiro necessário, ou suficiente, para um dia ter o seu próprio business, de sabe-se lá o quê. Nesta primeira conversa cordata entre os dois - após os desaguisados iniciais entre quem se entretém em mais uma viagem rotineira a virar a garrafa de vodka até tombar e quem quer pôr a mente também a viajar com música nos ouvidos e olhos numa câmara -, sentados em mesas opostas no vagão-restaurante, em diagonal um para o outro, a câmara de Kuosmanen liga os dois, rostos e olhares, por duas vezes em duas relativamente lentas panorâmicas: é possível unir estes dois mundos da estudante de Arqueologia e do biscateiro das minas, mas é preciso tempo, e não é em linha reta, mas sim pela curva da convivência (inevitável) e dos acontecimentos.


Lyokha talvez seja o homem destes tempos mais próximo dos ancestrais que deixaram os petróglifos. Rude, duro, agressivo, bruto, desafiador, de desenrasque, bebedor intensivo, de olhar fulminante, mas, simultaneamente, puro, genuíno, prestável, altruísta; fortemente dividido entre o coração mole e aberto que tem e a vontade de querer mostrá-lo como sendo duro e fechado. Por entre copos de vodka caseira, numa escala inusitada de uma noite em casa de uma velha solitária a quem Lyokha presta ajuda braçal no combate ao frio extremo, a anfitriã instiga Laura a libertar o animal que há dentro dela. Um apelo claro para Laura seguir o instinto, ser genuína, sem grandes reflexões. E depois de um acordar abrupto, ao som de sinos e machadadas, para regressar ao comboio, é de ressaca, a óculos escuros para um sol que não se vê de tanta neve e cinzento, que presenciamos ao primeiro sorriso largo e genuíno de Laura, no carro, ao lado de Lyokha, que conduz, curvado no volante.


E afinal o assustador Lyokha não passa de um ajudante de velhinhas na Rússia profunda; quem vê caras não vê (definitivamente) corações; e até a fiscal durona do comboio, que quase precisava de um suplicar de frio para dar uma saqueta de chá, vai amolecendo com a viagem; e o afável novo viajante do comboio, finlandês como Laura, de figura simpática, a dar música e acordes na guitarra no interior do compartimento agora partilhado a três, afinal, tinha a mão escorregadia para coisas outras, e, na sua partida - numa terra ainda antes da longínqua Murmansk -, leva com ele as imagens e as memórias, várias, de Laura com Irina em Moscovo; tempo novamente para outro travelling para trás, tal como no início da viagem, a mostrar as linhas de comboio que ficam para trás, que se confundem com o passado, ainda que recente, de que Laura fala a Lyokha - a vida com Irina em Moscovo - e, lentamente, vemos as várias luzes verdes e as quase nenhumas luzes vermelhas, dos semáforos nos carris, a saírem fora de campo; tempo de avançar e prosseguir, quase sem receios. Sim, mas o momento de avançar de uns pode ser o tempo para recuar de outros. Laura saboreia o champanhe, enquanto Lyokha repele e substitui por vodka; ela entrega-lhe o retrato (dele) que desenhou, enquanto ele esconde e recusa dar-lhe o retrato que fez dela; é a desarmonia a emergir; ela abre-se, ele fecha-se. Tempo para sairmos do comboio, todos, nós incluídos.


Espaço agora para respirarmos, finalmente fora dos corredores escuros e exíguos do comboio, tempo para sentirmos o frio polar e perdermos as vistas pelas montanhas de neve. De novo a solo, novamente a ouvir ' 'Voyage, Voyage', Laura está, ao mesmo tempo, perto e longe do seu rumo existencial - ainda em telefonemas com Irina, em Moscovo - e do seu destino físico-planeado (os Petróglifos, de acesso extremamente difícil nos Invernos). Lyokha parece ser a chave de fendas para prender o rumo ao destino, e o destino ao rumo, em novas viagens, de carro, cargueiro, a romper a neve e a partir o gelo que ainda surge entre os dois. E já junto ao Mar, nas rochas onde os petróglifos podem estar, a câmara concede-nos nova panorâmica entre os dois, desta feita, partindo de Lyokha, fixo, até Laura, em movimento na sua direção: assim como os petróglifos, Lyokha está ali (especado) para ela; presente que virará passado ou presente que virará futuro.


'O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Maki' (2016) e 'Compartimento nº6' (2021) são passado de Juho Kuosmanen - as duas únicas longas-metragens suas até ao momento -, que, sempre com delícia, podemos trazê-las ao presente, enquanto aguardamos serenamente, como no seu cinema, por um futuro (filme) que talvez um novo comboio trará.

 

'Compartment nº6', de Juho Kuosmanen

Visionado em Filmin Portugal

'Compartimento nº6', de Juho Kuosmanen (2021)

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