'Felicità', de Micaela Ramazzotti: entre a leveza do humor e o peso da seriedade
É caso para dizer que não houve duas sem três. Após Disco Boy (2023), de Giacomo Abbruzzese, e Una Sterminata Domenica (2023), de Alain Parroni, o NA VAGA DE ROHMER faz tripla na secção competitiva (reservada a novos realizadores) da Festa do Cinema Italiano, desta feita para ver Micaela Ramazzotti - que já conhecia como atriz de 'Às Coisas Que Nos Fazem Felizes' (2020), de Gabriele Muccino, esplendorosa a arrebatar corações dos amigos-namorados, e de 'Loucamente' (2016), de Paolo Virzi (com quem é casada), formando uma dupla de loucas insanáveis, numa verdadeira odisseia, com a incrível Valeri Bruni Tedeschi - no papel principal do seu filme de estreia enquanto realizadora, Felicità (2023) [‘Felicidade’], esta sexta-feira no Cinema São Jorge. Algures perdido, indeciso e dividido entre seguir o caminho da comédia negra e/ou do filme sério com notas de humor, Felicità reveste-se de leveza, de insanidade cómica, de imbecilidade, de momentos inusitados, de um certo nonsense, e de bobos da corte, para retratar e satirizar, através de uma família, a sociedade italiana atual: saúde mental; assédio sexual; pensamento/discurso xenófobo, racista - próprio da extrema-direita, radical e populista -; a vida numa realidade paralela, são temas explorados. A bela, incansável e omnipresente Micaela Ramazzotti, no papel de Desirée, esforça-se para ser a cola destes dois hemisférios: a leveza do humor e o peso da seriedade.
Mais ou menos a meio do filme dá-se um plano geral que é a imagem que melhor retrata e resume a história: Desirée é enquadrada de longe, sozinha, ao centro, tendo por trás dela o hospital psiquiátrico (onde o irmão esteve internado), um enorme edifício branco, e ela ali, estagnada, como epicentro de uma insanidade que cresce e emerge à sua volta, tomando também conta dela com o evoluir dos acontecimentos. O irmão Claudio (Matteo Olivetti) é depressivo, sofre de doença mental crescente que os pais desvalorizam, rejeitam e ignoram; o pai Max (Max Mazzonni) é um manipulador, charlatão, disseminador de verborreia da extrema-direita dos Salvini(s) e Meloni(s), crente-utópico nas suas capacidades artísticas (músico, ator, argumentista, comediante...), caindo no ridículo e deboche dos outros sem dar por isso; a mãe (Anna Galiena) vive numa realidade paralela, sendo um apêndice do marido (Max); e o namorado Bruno (Sergio Rubini), com quem Desirée vive, um professor, intelectual - vemos uma enorme estante de livros a separar Bruno de Desirée ao jantar e, depois, noutra cena, entre as duas portas das duas divisões da casa onde estão fechados naquele momento, assim, separados pelos livros e por aquilo que representam -, homem mais velho, que vive paranoico com os comportamentos, a ignorância, a falta de polidez e de filtro da desbocada Desirée, sabe-se depois que mantém uma vida dupla com outra mulher com quem vai ter um filho.
Desirée, a quem o pai - depois de receber mais um cheque da filha - lembra e entoa a música que cantava para ela quando era pequena - precisamente Désirée, canção francesa de Gilbert Bécaud, de 1985, e que facilmente deduzimos que terá sido influência decisiva para a escolha do nome da filha -, é desejada, fazendo jus ao nome dela e da música (Tu portes bien ton nom, Désirée, diz a letra repetidas vezes), desejada (sexualmente) por todos os atores e pessoal da produção na equipa de trabalho - Desirée é cabeleira de cinema -, é desejada pelo namorado Bruno, sexualmente refém dela, mas é também usada e sugada por todos. No trabalho é vítima de assédios sexuais, vários; na família é espoliada, passando cheques em branco e assinando de cruz os devaneios do pai, é atacada invejosamente pela mãe, e é pronto-socorro a toda a a hora do irmão; em casa, com Bruno, o sexo não tem o efeito reprodutivo que ela pretende e que ele castra.
E é com uma camada de leveza e comicidade que vemos Desirée, no papel de loira-tonta, a levar Bruno a um autêntico ataque de nervos num jantar com amigos intelectuais, ou Desirée e o irmão Claudio a digladiarem-se numa luta na relva às portas do hospital psiquiátrico, ou até o assédio constante do pessoal do trabalho, assédio esse que também ataca o pai Max e que este aceita - contrariando o seu repúdio pela homossexualidade que mais tarde numa conversa com a psicóloga o filho Cláudio evoca - em nome de um bem maior, a sua ascensão na carreira; aqui Ramazzotti dá um tiro duplo certeiro na sua sátira social, ao virar o bico ao prego nos valores retrógrados e homofóbicos da extrema-direita, evidenciando a volatilidade e contradição entre o plano teórico e depois a própria prática, e, simultaneamente, ataca o assédio sexual enquanto fator (promotor) de ascensão profissional. Também a desvalorização e leviandade com que os pais de Claudio, mas igualmente os médicos, e consequentemente o sistema de saúde público italiano, tratam o tema da saúde mental é exposto certeiramente; a cena de terapia familiar com a psicóloga, mesmo não produzindo qualquer efeito nos pais negacionistas, atua sobre o doente e passa mensagem a nós, público, a nós, sociedade.
Desirée e o pai Max - ambos com fulgurantes representações - parecem ter coladas à pele uma comicidade e uma leveza que acabam por atenuar e desdramatizar momentos de tensão; não conseguimos levá-los (muito) a sério. E talvez o propósito de Micaela Ramazzotti seja mesmo esse, de não levarmos Felicità muito a sério, sem deixar de expor, ridicularizar, satirizar, no fundo condenar, coisas más e sérias.
'Felicità', de Micaela Ramazzotti (2023)