'Perguntem à Lua', de Jacqueline Lentzou: da dança forçada ao abraço apertado
Se estivermos atentos aos créditos finais do filme 'Perguntem à Lua' (2021), nos agradecimentos, encontramos as referências a Chantal Akerman e Roland Barthes, perdidos por entre nomes gregos. É o reconhecimento público, por parte da realizadora Jacqueline Lentzou, da influência que estes dois ícones da linguagem deixaram no seu cinema, bem patente nesta sua primeira-longa metragem. Quem melhor do que Akerman a captar e a reproduzir imagens no cinema para suscitar a procura da sua significação - Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975); News From Home (1976); D'Est (1993); ou No Home Movie (2015) são exemplos paradigmáticos -; quem melhor do que Barthes, com a sua semiologia da significação, para pensar a linguagem nas suas formas diversas. Destoando da Greek Weird Wave, liderada por Yorgos Lanthimos, este filme de Jacqueline Lentzou recusa a criação de realidades e mundos paralelos, fantasiosos, preferindo debruçar-se sobre a vida real e a realidade da vida, numa história contada e desenvolvida magistralmente pelas imagens. Em 'Perguntem à Lua' (2021), a linguagem verbal na forma de diálogo não é mais do que um apêndice e é até usada para demonstrar a sua inoperacionalidade, em certos momentos, porque um 'sim' verbalizado pode ser igual a um 'não', num outro idioma, enquanto significante, se o som da palavra for idêntico, ou seja, está gerada a entropia.
Ao vermos o filme começar com uma sucessão de vídeos, datados (todos dos anos 90), indiscutivelmente VHS, e sabendo tratar-se de uma história de pai e filha, vêm logo à tona as boas memórias de Aftersun (2022), de Charlotte Wells, mas, definitivamente, não há caminho de encontro entre os dois filmes. Com esta sequência inicial de vídeos injetados no filme, Lentzou desafia-nos desde o primeiro instante, desarranja-nos, faz-nos questionar e procurar significação, sentido, quer pelas imagens que vamos vendo nos vídeos, que nada nos dão de imediato e de garantido, quer pela sequência cronológica datada dos vídeos, que não segue a linha do tempo com linearidade, quer pela forma como até associa as imagens de um dos vídeos ao primeiro diálogo que ouvimos, e que, pela conversa, percebemos tratar-se de uma viagem a decorrer, mas afinal as imagens não são da viagem que ouvimos - percecionamos isso depois quando o filme entra no próprio filme, digamos assim. Talvez para não nos inquietar em demasia, ao quarto vídeo, Lentzou associa o momento do diálogo circunstancial de viagem, que ouvimos apenas, entre Artemis (Sofia Kokkali) e uma pessoa que viaja ao seu lado, sobre o pai, Paris (Lazaros Georgakopoulos) - doente com esclerose múltipla, ela ruma em seu auxílio -, e a (ausência de) relação deles, com o movimento dos teleféricos que se afastam, e que depois (outros) se aproximam, e se cruzam, cada um na sua linha; neste preciso momento em que os teleféricos se cruzam, Artemis está a responder que não sabe o que é ser próxima (do pai); e tal como os teleféricos se afastaram e se aproximam de novo, cruzam-se e não se tocam, assim parece ter sido, assim parece ser, e assim será a relação de ambos, num recomeçar.
O mais interessante é - à medida que o filme avança e larga os VHS - seguirmos paulatinamente até ao seu final, e já depois do fim, refletindo sobre a significação daquelas imagens dos vídeos iniciais. No primeiro vídeo, vemos uma casa, com árvores à volta e um carro estacionado: ali se dava a vida de pessoas; no segundo vídeo, estamos em andamento num carro, em travelling para a frente, e ouvimos, via rádio supostamente, uma dissertação sobre o amor: é um partir num caminho em busca do amor; no terceiro vídeo, em plano fixo como no primeiro VHS, vemos uma máquina escavadora ao lado de um prédio de casas: é preciso fazer obras, demolir e construir de novo (uma nova relação); vídeo quatro, depois dos já referidos teleféricos, vemos um homem que faz ski, ao longe na montanha: um espelho do pai ziguezagueante, antes no plano comportamental, aparentemente, agora, fruto da doença que lhe afeta os músculos, fisicamente. Este exercício de procura de significação das imagens, que Lentzou provoca, encontra também paralelo no filme, de certo modo, com a busca de decifração em outras formas de linguagem, seja nas quatro cartas de Tarot que são lançadas ao longo do filme, como uns separadores, seja no jogo de mímica / representação de cenas de filmes para serem adivinhados (os filmes) por quem assiste - protagonizado por Artemis e uma dos jovens que frequentam a casa do pai, entre o jardim e a piscina, aparentemente amigos ou vizinhos de juventude, mas que nunca nos são apresentados -, seja pelo diálogo, feito de entropia, já ligeiramente abordada, na conversa-entrevista da família de Artemis com uma senhora estrangeira para ser a cuidadora de Paris.
Percebendo nós no reencontro de pai e filha no hospital que o desconforto entre ambos é deveras dominante, não é de estranhar, pois, que Artemis nos faça um tour pela casa do pai com uma lupa - que nos desfoca a visão - tentando situar-se, novamente, num lugar agora tão estranho para ela como para nós. Assumindo o papel voluntário de cuidadora do pai, um pai que ela chama de Paris (o nome próprio), Artemis entrega-se com toda a sua energia e fisicalidade, transformando fraquezas em forças. O seu rosto - refém da câmara aproximada, fixa e demorada de Lentzou - expressa as mais variadas emoções, sensações, pensamentos, repercutindo a viagem mental que vai vivendo naquela experiência sofrida e solitária, mas contendo-se e contraindo-se quando está a prestar cuidados ao pai, preso de movimentos. Desafiada pela família - a avó, os três tios e a prima surgem caricaturados como uma espécie de tribuna, daqueles que tudo sabem e que nada fazem, que querem decidir sem viver a experiência, que parecem querer responder a uma obrigação moral em vez de uma real preocupação com Paris - a substituir o fisioterapeuta nos exercícios do pai, vemos o corpo hesitante no levanta ou não da cadeira por parte de Artemis, até à dança forçada, ainda que voluntária, dela com o pai, cara a cara, ela de olhos baixos, ele apoiado nos seu ombros, prontos a darem os passos que o fisioterapeuta indica, passos iniciais para um refundar da relação entre ambos.
Nos intervalos das tarefas, Artemis contrasta com o pai, extravasando numa dança esfuziante, pouco ortodoxa, mexendo todos os membros e músculos possíveis ao som de Freestyler (Bomfunk MC's) - um hit da minha juventude -; contrasta com as raparigas que visitam a casa, elas mergulham na piscina, Artemis fica a olhar para elas, no vazio, ou a dormir a sesta; mas também imita o pai num levar sofrido e trémulo do cigarro à boca e do fogo ao cigarro, e roda a 360.º no banco giratório, vezes sem conta, e a câmara roda, também a 360.º, em volta do seu rosto enquanto extravasa na passadeira (máquina de exercício físico); e também imita o pai no relembrar de privações que ela sofreu em tempos idos, imita até ao choro, porque esse só pode ser real. Numa total escassez de diálogos, é o riso imprevisto do pai, e as gargalhadas de ambos, e os arrotos dela, enquanto come gelado, que quebram a primeira barreira, consequência natural do tempo passado juntos e, muitas vezes, colados literalmente corpo a corpo. Mas não há mudanças drásticas, não há sentimentalismos que surgem agora, transbordam e mudam tudo, não, nada disso, o filme mantém-se sóbrio, escorreito, rígido no seu propósito. E a família-tribuna continua a entrevistar candidatas para cuidar de Paris, perante o olhar impávido de Artemis; e ela continua a alternar nos modos de extravasar, e, nas manobras de pára-arranca sucessivas no carro, na garagem, dá-se a batida que faz abrir a caixa de pandora e saltar as memórias que trazem um segredo, em fotografias com bilhete, mas só Artemis lê, a nós resta-nos ver, até porque o primado é das imagens, e vemos o pai e o amigo, o Senhor Jacob, o mesmo, ou os mesmos que depois vemos, em planos aproximados dos rostos, no sofá, em frente à televisão - o som de fundo da televisão está sempre presente em casa - comerem em simultâneo os suculentos pêssegos que ele (o Senhor Jacob) trouxe, enquanto Artemis observa-os de frente e em silêncio, e pensa ou imagina, ou faz as duas coisas. Mas o segredo e o seu partilhar e/ou desvendar entre pai e filha não necessita de palavras, os olhos também falam, tal como o silêncio, e, no final, é o abraço bem apertado pelas mãos - leva a câmara a mudar de plano para bem enquadrar - que substitui a dança dos exercícios terapêuticos e os agarra um ao outro.
Moon, 66 Questions, de Jacqueline Lentzou (2021)
Visionado em Filmin Portugal
'Perguntem à Lua', de Jacqueline Lentzou (2021)