DA VAGA DE SALA - Especial Festa do Cinema Francês

Stéphane Pires • 14 de outubro de 2024

'Os Novos Vizinhos', de André Téchiné: uma família do outro lado da barricada


Quando um realizador é já um octogenário, com uma vasta carreira, e decide fazer mais um filme, um novo filme, é bastante provável que na sua cabeça paire a convicção, a ideia, ou apenas a possibilidade, de ser o derradeiro. Estando já o essencial da sua obra vertido ao longo de vários filmes espalhados no tempo, também é bastante provável, para alguns, pois cada cabeça sua sentença, que haja uma (boa) tentação de construir, difundir e deixar uma mensagem de contributo para um mundo melhor. O Sir Ken Loach, no alto dos seus 87 anos [agora são já 88],  criou, em 'O Pub The Old Oak' (2023) - aqui trazido em DA VAGA DE SALA aquando da sua estreia -, um verdadeiro manifesto de esperança, mesmo que alicerçado numa visão que aos dias de hoje nos parece quase utópica, depositando na solidariedade e no humanismo as chaves do espaço de encontro entre dois lados da barricada. Naquela terra esquecida no norte de Inglaterra, de um lado, temos uma comunidade assente em antigos mineiros - em minas de outrora, agora encerradas -; do outro lado da barricada, estão os refugiados sírios que acabam de chegar para ali viverem. De um lado, Loach mostra-nos a pobreza, o desemprego, a decadência, a raiva de quem foi vetado ao esquecimento, que rapidamente desagua em racismo, xenofobia, nacionalismo exacerbado; do outro lado da barricada, vemos quem foge da guerra e da morte, quem quer recomeçar, quem quer viver de novo. E, apesar de todo o tumulto, da agressividade, dos obstáculos à partilha, Loach coloca os dois lados a construir algo em conjunto, a comerem à mesma mesa, apesar da resistência de uns quantos, e deixa a sua mensagem de esperança. Um pouco mais novo, mas também já octogenário, André Téchiné traz-nos dois lados da barricada na França atual, que se encontram e confrontam nas ruas, os polícias e os black blocs (um grupo radical, anticapitalista e antiglobalização, que recorre a atos de violência e grave desordem pública nas manifestações em França) - assim vimos em 'Os Novos Vizinhos' (2024), este domingo, no dia final da Festa do Cinema Francês no São Jorge. Na verdade, tal como Loach, Téchiné deixa-nos uma mensagem de esperança através da solidariedade e do humanismo.


Nos planos iniciais de 'Os Novos Vizinhos' vemos gritos de ordem de um grupo que se manifesta na rua, todos vestidos de preto, todos de máscara no rosto: não, não são membros do dos black blocs, são polícias a reivindicarem melhores condições para o exercício da função. Assim que entoa La Marseillaise as máscaras são retiradas e a câmara procura e foca o rosto de Lucie (Isabelle Huppert, no seu enésimo filme), para depois vaguear pelos rostos dos demais polícias. Esta escolha de arranque de filme evidencia, desde logo, a vontade de Téchiné em aproximar, aos nossos olhos, os dois lados da barricada com aquilo que no geral os une, que lhes é comum, o desagrado com o cenário social que se vive, desembocando no exercício de manifestação, para daí saltarmos para uma visão mais particular, e pessoal também, desde Lucie até ao seu novo vizinho Yann (Nahuel Pérez Biscayart), membro dos black blocs, que se mudou recentemente com a mulher Julia (Hafsia Herzi) e a filha Rose (Romane Meunier) para a casa do lado. Fragilizada pela perda relativamente recente do marido Slimane, também ele polícia - suicidou-se, mas Lucie continua a vê-lo amiúde em casa, num claro déjà vu do filme que aqui trouxemos no Especial Festa do Cinema Francês, 'Sidonie no Japão' (2023), de Élise Girard, também com a protagonsta de Isabelle Huppert a ver o marido defunto a cada passo -, e ainda em recuperação após internamento num hospital psiquiátrico, Lucie resiste à vontade de uma aposentadoria antecipada que o seu superior defende. É pelas mãos de uma criança, a pequena Rose, que  a solitária Lucie conhece o casal Yann e Julia. A rede da vedação que separa as duas casas, os dois lados da barricada, rapidamente é atravessada, até simbolicamente pelo charro que Lucie e Yann partilham num estender de braços e mãos por cima dela (da vedação), e a agente da polícia que se camufla como administrativa da função pública vai entrando gradualmente no seio da família vizinha, não para investigar - mesmo depois de saber que Yann é um ativista radicalizado, em liberdade condicional, e que está sob a mira da polícia -, mas sim para se relacionar.


Com a opinião pública francesa a condenar muitas vezes a brutalidade das forças policiais nas frequentes manifestações nas ruas gaulesas, Téchiné, pela figura de Lucie, dá-nos uma outra face de um(a) agente policial, alguém que é dócil, prestável, solidária, profundamente humanista, com tremenda vontade em criar laços com quem está por perto, na casa ao lado: ajuda a família a cuidar de Rose, mas, também, partilham jantares e serões. Quanto ao outro lado da barricada, os black blocs, cujos atos violentos e distúrbios proliferam, com ataques a lojas e estruturas, símbolos de um capitalismo que condenam, Téchiné apresenta-nos a figura de um artista, um criativo, dotado de sensibilidade, que desenha e expõe as suas obras numa galeria em que prefere não colocar lá os pés, deixando a cargo de Julia a sua representação. Para complementar este retrato da outra face de cada um dos lados somos remetidos, de um lado, para uma reunião sindical dos polícias em que é exposta uma profunda preocupação com a taxa de suicídio, suicídio que ali é mesmo considerado o perigo maior que um polícia enfrenta: é uma clara chamada de atenção de Téchiné para a necessidade de melhorar as condições dos agentes de autoridade, até porque o risco de radicalização de classe - com aproximação aos ideais de extrema-direita - é deveras enorme. Do outro lado, viajamos até ao habitat de uma família de ativistas radicais (amigos de Yann), que vivem numa caravana, estacionada numa quinta onde produzem e colhem açafrão, para depois venderem; a matriarca explica a Lucie, que acompanha Yann, o processo, incluindo o trabalho árduo: aqui Téchiné visa elucidar que um ativista/manifestante violento não é necessariamente um vagabundo ou ocioso na sociedade, pode também trabalhar e muito.


E mesmo que a afinidade entre Lucie e Yann possa parecer demasiado forçada no filme, quer pelas fotografias de África que ele expôs quando apenas o vemos a desenhar, nunca a fotografar - sensibiliza Lucie, que recorda as viagens com o marido africano àquele continente -, quer pela música, também africana, que ela põe a tocar e que ele desconhecia, mas que dança desalmadamente, de forma esfusiante, entregando-se de corpo e alma, ao longo daquele parque de estacionamento, por conseguinte, as presenças de Julia e Rose e a relação que Lucie vai desenvolvendo com cada uma delas, e com as duas, acabam por trazer mais verosimilhança à história, conferindo um certo reboco ao manifesto de intenção de Téchiné. Sem máscaras, unidos numa liberdade condicional, pela solidariedade e pelo humanismo, uma agente da polícia e um membro black bloc, melhor, Lucie e Yann, podem agora poisar juntos numa selfie de família.


Les gens d'à côté, de André Téchiné (2024)

Visionado na Festa do Cinema Francês, Cinema São Jorge

'Os Novos Vizinhos', de André Téchiné (2024)

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